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Alexandrina Diniz da Silva

1940 - 2020

Dona Xande, originária da etnia indígena Piratapuia, mulher sábia, que amava a família sem medidas.

Seu nome indígena era Horôri-Pakko, que significa “Mãe da Flor”, palavras que lhe caem muito bem. Morava em São Gabriel da Cachoeira, o município com o maior número de indígenas do Brasil, onde cerca de 90% da população pertencem a mais de vinte etnias diversas.

Nascida numa comunidade no Rio Papuri, desceu para a área urbana no distrito de Yauaretê, quando tinha uns dez anos de idade. Foi colocada pelos pais no internato da missão salesiana, onde passou parte da adolescência. De lá foi para um internato em Belém do Pará e depois voltou para São Gabriel, onde conheceu, em 1966, aos 25 anos, Renô Alves da Silva, filho de nordestino com colombiana, que logo pediu sua mão em casamento. Casada, morou um tempo na cidade e depois foi morar no sítio Mauá, da família do marido, no Rio Waupés.

Teve 6 filhos: Angelina, Eron (falecido jovem), Ana, Dieles, Januária e Rocivalda. Os filhos lhe deram nove netos: Marianne, Michely, Carlos Alberto, Helena, Victor Ricardo, Isabella, José Maria, Leonam Renô, Gabriella e Lizianny. E teve três bisnetos, sendo que a mais nova, a recém-nascida Antonnela, ela não chegou a conhecer.

Por ter sido criada fora da aldeia, no internato, era católica fervorosa, mas mantinha o orgulho de ser indígena e honrar suas raízes. Quando se casou, o marido não permitiu que continuasse falando na língua nativa com os filhos, mas mesmo assim conseguiu transmitir a eles ensinamentos sobre a agricultura de subsistência e o uso de plantas medicinais. Tinha sua plantação de mandioca e frutas, além de canteiros com muitas ervas, entre elas cidreira, capim-santo, folha de pirarucu, boldo, babosa, pé de folha de alho e planta óleo elétrico. Sempre com muita disposição, roçava, plantava, colhia, acendia um fogo, preparava um chá ou unguento.

Amava comer pescados. Preparava receitas da tradição indígena, típicas da região do Alto Rio Negro: quinhapira, um caldo de peixe bem simples feito com pimenta e tucupi, acompanhado de beijú e farinha; e mujeca, um outro caldo de peixe preparado com goma de mandioca.

No final da tarde, depois de cuidar de tudo, sentava na cadeira de balanço, colocava a peneira de retalhos em cima das pernas e criava belos tapetes a partir dos sacos de fibras e dos restos de tecidos que a filha Angelina, costureira, lhe trazia. Sua presença ficou materializada em cada um dos tapetes que fez especialmente para cada filho e para cada neto.

Fazia amizade com muita facilidade. Quando ia à feirinha, um de seus momentos preferidos, encontrava dezenas de amigos, alguns ainda da juventude, e conversava com cada um sem se preocupar com o tempo. Os familiares brincavam dizendo que acompanhá-la neste percurso era praticamente como ir a “uma procissão”.

Marianne, a neta mais velha, conta que ela tinha um amor pleno, por todos, sem distinção, sem fragmentação. Lembrava do aniversário de cada um, procurava estar sempre presente, levava um mimo, não media esforços nem para viajar e ver a família de sua filha Januária, que morou no Rio de Janeiro e agora está em Manaus.

Nunca teve medo de falar o que sentia. Gostava de ver todos unidos, abria para o diálogo e mediava os conflitos, incentivando o bom relacionamento em meio às diferenças. Era uma boa conselheira, mesmo tendo passado por situações delicadas. Perdeu o filho mais velho Eron quando ele tinha 22 anos, de forma trágica. Encontrou aceitação e força mantendo em primeiro lugar o cuidado com a família, conectada com a sabedoria ancestral impressa em seu DNA.

Casada por 27 anos, ficou viúva em 1994, aos 53 anos, alguns meses depois que tinha perdido o filho. Preferiu nunca mais se casar, mantendo a lealdade ao único marido até o final da vida. Dizia que o casamento era eterno.

Sempre pontual, não perdia as missas de domingo pela manhã. Suas paixões eram Deus e a família. Foi uma das maiores incentivadoras do recente casamento simultâneo da filha Rocivalda com Joelmir, na mesma cerimônia religiosa onde confirmaram união sua neta Marianne com Francisney. Cheia de emoção, a avó considerou uma bênção a realização desse antigo desejo de vê-los no altar.

Dona Xande foi um verdadeiro exemplo de sabedoria, força, humildade e amor.

Na última conversa que teve com a neta mais velha, já doente, deitada em sua rede, disse que amava todos os filhos da mesma forma e pediu que se cuidassem com amor e paciência. Quando já tinha sido transferida de avião para o Hospital Delphina Rinaldi Abdel Aziz, em Manaus, em isolamento, a equipe médica deu à família a chance de se despedir da mãe e avó amada, recebendo as mensagens de respeito e amor que lhe foram enviadas e lidas antes de sua partida.

Alexandrina nasceu em São Gabriel da Cachoeira (AM) e faleceu em Manaus (AM), aos 79 anos, vítima do novo coronavírus.

Tributo escrito a partir de testemunho concedido pela neta de Alexandrina, Marianne Kaliny Ferreira da Silva. Este texto foi apurado e escrito por Jornalista Bettina Turner, revisado por Gabriela Carneiro e moderado por Rayane Urani em 29 de agosto de 2020.