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Alexandrino da Silva Neto

1934 - 2020

O elo que unia a família e os amigos.

Em uma trajetória tão vasta de vida, Alexandrino soube recomeçar e preservar o caminho que trilhou. Em uma nova versão, desfez o passado dependente do álcool e se tornou um dos recuperados mais antigos da Associação Antialcoólica do Estado de São Paulo, contabilizando cinquenta e um anos de recuperação. As medalhas que recebia todos os anos pela persistência em continuar sóbrio estão todas guardadas pela família com o devido orgulho.

A determinação foi aliada na vida de Alexandrino. Não apenas na superação própria como também na profissão de caminhoneiro ─ atividade que proporcionou que ele conhecesse quase todo o país ─ e que se orgulhava muito de ter aposentado no ofício. Mas não viajava somente a trabalho e, por vezes, tinha uma motivação nobre e própria dele: sozinho na estrada para Ribeirão Preto, ia visitar familiares por fazer questão de manter contato com parentes de primeiro, segundo e quantos graus existissem. Era o único que atravessava fronteiras para não deixar a família se distanciar, tanto que seus familiares costumavam compará-lo a um elo que unia os seus.

Não havia limites também no amor cultivado por mais de sessenta anos com sua única esposa, para quem o companheirismo de Alexandrino foi ainda mais importante ao enfrentar o Alzheimer. A partida de seu marido não é bem compreendida por ela, por isso, ela ainda chama por ele todos os dias. Em casa, era muito ativo, cuidava de tudo, pagava contas, fazia compras e, às vezes, cozinhava.

Também se via o tamanho da energia dele através dos casos que contava aos montes, porque era bastante conversador e fez muitos amigos durante a vida para ouvir suas histórias.

Era vaidoso tanto com sua aparência quanto com o único carro que teve na vida por opção, e que também cuidava com capricho.

Alexandrino deixa o sentimento de que viver quase nove décadas não foi suficiente para aqueles que o amam. Não satisfazem diante de todo carinho que ainda estava disposto a dar. Mas, apesar de sempre parecer precoce, as viagens definitivas de pessoas como Alexandrino deixam para os que aqui ficam um grande ensinamento: zelar por quem se ama faz tudo ter valido a pena!

Alexandrino nasceu em São José da Laje (AL) e faleceu em São Paulo (SP), aos 86 anos, vítima do novo coronavírus.

Testemunho enviado pela filha de Alexandrino, Selma da Silva Araújo. Este tributo foi apurado por Júllia Cássia, editado por Júllia Cássia, revisado por Lígia Franzin e moderado por Rayane Urani em 19 de novembro de 2020.