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Ana Eliza Rodrigues Lopes Lima

1990 - 2020

Fez da gastronomia seu sonho e da vida a alquimia entre ser brava e leal, mantendo um sorriso lindo.

Seu nome, Ana Eliza, vem de uma homenagem a duas tias: Ana Maria, irmã de seu pai e Elizabete, irmã de sua mãe. Os pais, Rita de Cassia e Juraci Antônio trabalhavam muito, por isso, na infância ela passava muito tempo na casa da avó paterna, Donatila, onde as netas se encontravam boa parte do tempo. Gostava de brincar na rua de “pira se esconde”.

Quem conta a história de Nana, como era carinhosamente chamada, é sua prima, Juliana, quatro anos mais nova que ela. Foi na adolescência que se aproximaram mais. “Ela me dava colo quando eu precisava, me fazia rir, me fazia companhia, dava bons conselhos. Fica difícil falar dela no passado. Era uma prima que muitas vezes fez o papel de mãe, meu porto seguro”, diz.

Saíam juntas para as festas: “Ela me levou para o meu primeiro pagode, quando eu tinha 17 anos”. Curtia música sertaneja também. O repertório ia mudando de tempos em tempos, mas uma de suas canções preferidas era “Amizade é Tudo”, de Thiaguinho e Jeito Moleque”, cuja letra fala de lealdade à prova de qualquer desafio, assim como ela acreditava e cantava: “É luz na escuridão/ Somos um só coração/ Sempre vivo na memória/ Faz parte da minha história / Nada vai nos separar.”

Gostava também de leituras, lia até tarde da noite. Embora tenha feito faculdade de Administração em Marketing, o que adorava mesmo era cozinhar. Começou fazendo coxinhas com uma receita sugerida por Juliana e o resultado foi que ficaram deliciosas. Encantada com a descoberta de seu talento culinário, partiu para salgados variados e abriu uma microempresa: “Salgados da Ana”. Era uma pequena lanchonete que a família carinhosamente chamava de “bodega”.

Morava com a mãe e as duas irmãs, Áurea Cristina e Angélica. Todo ano, nas férias, ia visitar a família da mãe na casa da outra avó, Olga, em Balsas, no Maranhão.

Tinha fama de ser geniosa e briguenta, mesmo assim fazia amizade com facilidade e, na rua, todo mundo sabia onde morava a Ana Eliza. Quando ficava de mal com alguém era uma luta até fazer as pazes novamente. Mas cozinhar, além de ser um grande prazer para ela, funcionava como uma forma de meditação, acalmando-a.

Decidiu então realizar o sonho de estudar Gastronomia. Era a alegria dela. Completou o curso técnico, foi aprovada, mas a formatura foi suspensa pelo início da pandemia. Quando começou a estagiar, sempre voltava para casa realizada e sorrindo, mesmo depois de ficar horas na parada esperando o ônibus. O certificado não chegou a tempo, talvez porque, na dimensão dos mistérios, ela não esteja mais precisando de diploma para ser em essência o seu melhor: “Tinha uma risada única e o sorriso mais bonito e luminoso que já vi”, lembra a prima.

Acima de tudo, Nana era prestativa. Deixava suas coisas de lado para ajudar quem precisasse. Defendia quem amava com unhas e dentes. Levantava a sobrancelha com uma expressão do tipo “não mexe comigo”, conta Juliana: "Eu sabia que aquela braveza era uma forma dela se defender, de lutar pelo que acreditava. Ela era sensível e leal. Defendia quem amava. Até quando eu estava errada, ela era verdadeira em me mostrar o caminho certo e me apoiar. Ensinou-me a crescer".

Ana nasceu em Belém (PA) e faleceu em Belém (PA), aos 29 anos, vítima do novo coronavírus.

Tributo escrito a partir de testemunho concedido pela prima de Ana, Juliana Calvinho. Este texto foi apurado e escrito por Jornalista Bettina Turner, revisado por Lígia Franzin e moderado por Rayane Urani em 3 de fevereiro de 2021.