Sobre o Inumeráveis

André Luiz Moreira da Silveira

1979 - 2020

Quando saía para passear, parava para falar com todo conhecido que encontrava; até chegar ao destino, custava.

Ele era conhecido como Deco. Nascido e criado no bairro carioca Engenho de Dentro, era muito solicitado por todos por trabalhar como Técnico de Enfermagem no Hospital Municipal Salgado Filho. Para ele não existia tempo ruim: sempre ajudava quando alguém necessitava de auxílio nas marcações de consultas e exames. Até brincava dizendo que era "sócio" do Salgado Filho. Deco gostava do que fazia. Logo no início de sua atuação na Unidade, recebeu uma menção honrosa, em reconhecimento pelo trabalho e por seu compromisso em servir ao público tão bem quanto fazia.

Ele e a companheira, Simone, estavam juntos há nove anos. Conheceram-se lá mesmo no hospital onde ambos trabalhavam. Essa união, de muita cumplicidade e amor, foi bastante festejada pelos colegas do setor. A felicidade do casal foi multiplicada com o nascimento da filha, a "doce Malu", como ele a chamava.

Pai dedicado, foi muito participativo ao longo do desenvolvimento da Malu. A filha era a sua maior paixão. Quando a mãe estava de plantão, Deco cuidava da garota: levava para a escola, fazia penteados e dava apelidos para eles, como, por exemplo, "eriquetas". Pelos penteados extravagantes a professora já sabia que a mãe estava trabalhando...

Deco era muito amigo de todos em sua região. Nas horas livres, gostava de estar próximo dos familiares e amigos, e amava jogar uma pelada com eles. Além de jogar muita bola, também era atleta de judô. Muito conhecido e bem quisto por todos, tinha várias comunidades de amigos. Tinha o grupo dos veteranos, o grupo dos amigos de infância, e os grupos dos hospitais — pois além do Salgado Filho, trabalhava ainda no Nise da Silveira. Também tinha o grupo dos amigos da Praça Rio Grande do Norte, onde viveu sua infância, e os grupos do Outeiro e da Dois de Fevereiro. Era tão querido, que um grupo até fez uma homenagem para ele com um "banner" imenso com a camisa de coração. E na Praça Rio Grande, colocaram uma outra homenagem eternizando seu nome. Ele era muito amado por todos.

Era também apaixonado pelo Botafogo. Quando o time ia mal, ele ficava quietinho assistindo à partida no sofá. E quando ia bem e fazia gols, ele ia pra janela e gritava: “Bota a cara, urubu!”, brincando com o vizinho e amigo de infância do segundo andar, que era flamenguista. Por ele o amigo até vestiu camisa do Botafogo.

Aos domingos já ia dizendo: "Vamos, gente, acorda! Temos dois eventos hoje pra ir". Agora faz falta ouvir a voz dele chamando e também a cantoria no banheiro, antes do banho, quando entoava sambas de Carnaval — era uma de suas manias. Também faz falta o acompanhamento na educação da Malu — suas orientações eram valiosíssimas.

Do pai, Malu herdou o jeito doce e tranquilo. Em seu aniversário de 10 anos, as duas tias paternas e a mãe fizeram uma festinha no parque. Por volta das 20 horas apareceu ali uma borboleta amarela, com contorno marrom nas asas; ela pousou no vaso de flores que estava sobre a mesa e lá ficou até o Parabéns. Crianças correndo, quase tombando a mesa, e lá estava ela, majestosa e grudadinha nas flores, que nem naturais eram. Depois, sem ser vista, partiu. Era como se o Deco tivesse passado por lá.

A família acredita que hoje, onde quer que o Deco esteja, ele está bem, cuidado de longe da Malu e olhando por ela.
"Ele ficará eternizado no coração de todos que tiveram a oportunidade de conhecê-lo — muitos na sua infância, outros na adolescência, outros ainda na sua fase adulta", diz carinhosamente Simone. "Como esposa, pude ser escolhida por Deus para conceber essa sementinha, a nossa Malu. E me concedeu a oportunidade de viver com esse ser de luz, que encerrou sua missão aqui neste plano carnal. Ele era um Espírito de Luz".

André nasceu no Rio de Janeiro (RJ) e faleceu no Rio de Janeiro (RJ), aos 41 anos, vítima do novo coronavírus.

Testemunho enviado pela esposa de André, Simone Das Neves. Este tributo foi apurado por Saory Miyakawa Morais, editado por Raphaela Costa, revisado por Maria Eugênia Laurito Summa e moderado por Rayane Urani em 19 de novembro de 2021.