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Antonio de Souza Costa

1957 - 2021

Um taxista que cantava marchinhas para ninar a filha e não tirava o boné, a não ser na hora de dar a benção.

Foi um pai e um avô amoroso. Era protetor e preocupava-se mais com a família do que com qualquer outra coisa, inclusive ele próprio.

De alma bondosa, rezava todas as noites pelos familiares. Se visse uma criança com fome, sempre ajudava. "Ele dizia que os pais devem amar seus filhos, e ele nos amou e nos protegeu por toda a vida, até mesmo depois de estarmos crescidos."

Trabalhador e honesto, ensinou a filha a rezar desde pequena para afastar os pesadelos. Ensinou muito mais: com Antonio, Fernanda também aprendeu a lutar e a ter forças para vencer.

Desde muito jovem abraçou a profissão de taxista e o uso de bonés ─ não saía sem boné, aliás, não tirava quase nunca seu boné!

Outra coisa que cultivou ─ dessa mesma época ─ foi a namorada da adolescência. Casou-se com ela e juntos partilharam cada fase da vida com amor e respeito, até sua partida.

Antonio gostava de ovo frito e de tomar uma cervejinha ao chegar em casa à noite. Enquanto apreciava a gelada, contava suas histórias. "Dizia que amava estar em casa, que não havia lugar melhor para estar. Lembro-me de chegar em casa, levantar seu boné para 'pedir bença' e dar um cheiro em seu cabelo, já branquinho pelo tempo", relembra a filha.

"Quando eu era pequena, ele cantava marchinhas de carnaval pra eu dormir e me levava para ver as bonecas que passavam nas ruas da nossa cidade nos carnavais de uma época feliz, um tempo que não volta mais", conclui saudosa a filha Fernanda, na certeza que o amor que sempre existiu entre eles viverá para sempre.

Antonio nasceu em Itacoatiara (AM) e faleceu em Manaus (AM), aos 64 anos, vítima do novo coronavírus.

Tributo escrito a partir de testemunho concedido pela filha de Antonio, Fernanda Cavalcante Costa. Este texto foi apurado e escrito por Lígia Franzin, revisado por Acácia Montagnolli e moderado por Rayane Urani em 12 de abril de 2021.