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Aruká Juma

1935 - 2021

Ancião, símbolo da resistência Juma e dos povos originários da Amazônia, do Brasil e do mundo.

O guerreiro Aruká era a memória viva dos rituais e tradições dos Juma, mas também do genocídio sofrido pelo povo, que quase desapareceu em função da ação colonizadora. O luto, entretanto, não o impedia de demonstrar felicidade com as coisas simples.

Sabe-se que tinha entre 86 e 90 anos. Passou a última etapa da vida no solo onde floresceu seu povo, a Terra Indígena Juma, no Amazonas, após dez anos de um depressivo exílio na Terra Indígena Uru-Eu-Wau-Wau, em Rondônia. Quando voltou para casa, sentiu-se mais vivo e a alegria contagiou seus familiares.

Em solo Juma, sua prioridade foi erguer uma maloca inspirada nas habitações de seu passado, como forma de retomar um modo de vida bruscamente interrompido pelo homem branco.

Tinha por hábito quase diário visitar o cemitério onde estava enterrada a esposa. Percorrer a mata e o castanhal parecia revigorar a vitalidade, abalada ao longo dos anos mais difíceis.

Demonstrava tristeza quando os netos viajavam para estudar nos Uru-Eu-Wau-Wau, mas se iluminava quando voltavam. Testemunha de inúmeras despedidas, gostava de ver seu povo unido.

Deixou três filhas, netos e bisnetos, que levam adiante a identidade dos Juma e cumprem, corajosamente, a missão de consolidar a cultura e preservar a integridade do território.

Aruká nasceu em Canutama (AM) e faleceu em Porto Velho (RO), aos 86 anos, vítima do novo coronavírus.

Tributo escrito a partir de testemunho concedido pelo neto de Aruká, Kuaimbú Uru Eu Wau Wau. Este texto foi apurado e escrito por Jornalista Murilo Cruz Pajolla, revisado por Lígia Franzin e moderado por Rayane Urani em 24 de março de 2021.