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Avani Matos Rodrigues

1949 - 2020

A Dona Benta da Bahia.

Era a única pessoa que sabia coçar as costas do neto Cauê, do jeitinho que ele gostava, até pegar no sono. Por mais que os pais tentassem, o menino de 12 anos sempre acabava indo dormir na casa da avó. “Sabe a Dona Benta? Era ela”, comenta Peterson Azevedo, pai de Cauê e genro de Avani.

“Quando ela se tornou avó pela primeira vez, a emoção veio à flor da pele, ela se viu novamente mãe”, explica Peterson. Nos últimos anos, dona Avani dedicava-se totalmente aos netos. Além de Cauê, era avó da Geovanna, de 11 anos, do Luan, de 9 anos, e das gêmeas Lara e Louise, de 2 anos Paparicava os netos de toda forma possível. Seu grande objetivo, inclusive, era fazer o Luan gostar de comer alguma coisa além de nuggets e arroz.

E se tem uma coisa que dona Avani era boa e gostava, era de cozinhar. “Eu sempre brinco que ela me pegou pela barriga, porque ela fazia um cozido maravilhoso”, conta o genro. “Uma cozinheira de mão-cheia, toda comida que você imagina, ela sabia fazer.” Também era excelente costureira e, sempre muito solícita e disposta a ajudar o próximo, chegou a fazer máscaras para os vizinhos do condomínio em que morava com a família.

Mas, conquistar dona Avani não foi nada fácil. Quando começou a namorar Monique, sua filha do meio, só podia almoçar na cozinha, nunca na sala, mesmo que a conhecesse desde criança - “muita folga botar o namorado para almoçar na sala”. Com o tempo, no entanto, Peterson se tornou mais um filho. Ela confiava nele para tudo, desde resolver questões no cartório, até problemas na casa, como furar uma parede para colocar um quadro ou consertar o encanamento. “Ela me adotou, foi a minha segunda mãe. O amor que tinha por mim era incondicional. Consegui dobrar a sogra”, brinca. “Ela não me via como genro, mas sim como filho mais velho.”

Além da religião, a família era a maior prioridade de Avani. Apesar de ser um tanto teimosa e cabeça-dura — quando metia uma ideia na cabeça, ninguém conseguia tirar. Era o grande alicerce, a cola que unia todos, especialmente nas datas comemorativas. Natal, Páscoa, aniversários... eram todos por conta dela. Para o filho mais novo, Francisco Júnior, sempre fazia uma feijoada para cerca de 100 convidados. Segundo Peterson, junto com o cozido, essa era mais uma de suas especialidades.

Nem mesmo para Chico, seu marido, foi fácil entrar para a família. Nos 4 anos que namoraram, que antecederam os 48 de casados, passaram uma boa parte em um relacionamento escondido da mãe de Avani, que faleceu em 2013. Peterson lembra que a sogra sempre costumava contar de uma vez que foi para a praia com Chico sem que a mãe soubesse. Quando descobriu, deu entrada no hospital local para que o casal voltasse logo e fez Francisco prometer que nunca mais faria algo do tipo. “É uma família de mulheres fortes”, elogia Peterson. Além de Monique e Francisco Júnior, também tiveram Silvana, a filha mais velha.

A maior herança que dona Avani deixou para a família foi a sua força. “Não vou chorar, porque minha avó disse que era para eu ficar feliz”, falou Cauê para seu pai, depois do falecimento da avó. Seu último pedido para os filhos foi que cuidassem do pai, Chico, seu grande amor.

Avani nasceu em Itororó (BA) e faleceu em Salvador (BA), aos 71 anos, vítima do novo coronavírus.

Tributo escrito a partir de testemunho concedido pelo genro de Avani, Peterson Azevedo. Este texto foi apurado e escrito por Jornalista Audryn Karolyne, revisado por Lígia Franzin e moderado por Rayane Urani em 15 de junho de 2020.