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Badih Salim Chedraoui

1936 - 2020

Badih virou palavra, que mora nos cedros sagrados do Líbano.

Quantas mensagens o vento carrega? Como se ocupa de passar um recado? Se por tantas paisagens passa, como o vento guarda as palavras? Para Badih, foram as folhas dos cedros sagrados do Vale de Kadisha que ditaram o recado. Pelo vento, o farfalhar das copas foram oráculo. Quando prontas, as palavras viajaram as montanhas do norte do Líbano, se limparam do desnecessário, apuraram as frases até, por fim, estarem maduras o suficiente. Então, viraram brisa. Quando a mensagem é importante, chega como um suspiro. Assim, esse fio de sopro encontrou, aos 16 anos, Badih. O peito descoberto do jovem, morador da pequena Aldeia de Charbila, decodifica aquele friozinho do destino, carregado de mensagem.

Mas mensagem de vento não se escuta. Só sente. Assim, o garoto sentiu no corpo a palavra dos seus antepassados: coragem. Sentia o que deveria fazer: ir. Apenas ir. Como o vento, deveria ele também ser um viajante. Se coragem sobrava, idade faltava. Mas, o imperativo de ir, ditava as regras: “Pai, preciso que mude minha data de nascimento. Vou ao Brasil buscar dias melhores para nós. Não fico um dia a mais vendo nossa miséria!”. O pai, Salim, de maneira abrupta, mas corajosa, acolhe a sina de Badih.

No Líbano, deixa a memória da mãe, Azize, em prantos sendo confortada pelo pai. Sabia que podia contar com Khalil, o irmão, para garantir o sustento dos demais irmãos e dos pais. Deixa a memória da irmãzinha, Lamis, agarrando sua calça, na tentativa de que ele não fosse... Foram 30 dias de viagem, na parte menos nobre de um navio, sem saber uma palavra sequer em português. De bagagem, “a roupa do corpo e os sonhos da alma”. No auge da adolescência, Badih parte para uma busca que vai determinar não só a sua existência, mas a de uma família inteira chamada Chadraoui.

Em Nilópolis (RJ), 1956, Badih é acolhido pelos tios Stephan e Seme. Mas, rapidamente percebe, que ali não conseguiria todo recurso para a família. Com o apoio financeiro do tio Michel, Badih abre sua primeira loja. Pouco tempo depois, o irmão Khalil é preso no Líbano por defender seus ideais contra a ditadura libanesa. Ao ser solto, imigra para o Brasil, fugindo do radicalismo e autoritarismo do regime. Juntos, Badih e Khalil trabalham arduamente. O objetivo de tanta entrega: trazer a família inteira para o Brasil. Conseguiram.

Com a família novamente reunida, ainda que diante de tanta falta, uma coisa era farta: o amor e a coragem. Em meio a tanta cumplicidade, nasce a primeira filha de Badih, Lamis. A nova vida foi motivo de maior união da família. Os irmãos faziam assim: Badia costurava, Ghassan e Badih eram mascates durante a construção de Brasília. Lamis e Bassan abriram mão do tempo de escola para trabalhar.

Assim, já nos anos 60 e 70, a união da família era tamanha que, inclusive os sonhos, eram sonhados juntos. O maior: voltar para o Líbano. Como precursor do destino, Badih volta. Mas vê o sonho rasgado por conta da guerra civil instaurada no país natal. Ali, quais mensagens recebera dos ventos, depois de tanto tempo longe? Quais palavras do oráculo dos cedros invadiram seu peito? O que segue da narrativa de Badih pode ser uma resposta: de volta para o Brasil, diante da família, não é só o filho, o pai, o tio. É mais: é a figura encarnada de um mártir, justiceiro e idealista.

No país que o acolheu, Badih multiplicou generosidade. Aos 84 anos, seguia com a rotina firme por trás do balcão da sua loja. Abria mão dos dias de praia para que os seus, filhos e netos, pudessem aproveitar por ele. Junto à esposa, Mariana, construiu uma parceria que transbordou cumplicidade. Seus nomes são: Lamis, Jair, Geni, Alice e Jorge.

Hoje, Badih é palavra que vira vento. Charbila, sua aldeia de nascimento, em árabe significa luz. Se há vento, uma brisa que seja, uma chama jamais se apaga. Assim permanece vivo nos seus. Como um vento, alimenta a chama de cada Chadraoui. E, sobre vento, já se sabe: não se escuta. Só sente.

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O comerciante libanês que deixou saudades em Nova Iguaçu.

Nascido na região de Akkar, no Libano, Badih imigrou para o Brasil em 1956.

Desde então gostava de participar da comunidade libanesa aqui, tornando-se próximo do Vicariato Patriarcal Antioquino do Rio de Janeiro. Era um atuante comerciante da região de Nova Iguaçu/RJ, fundador das lojas Belmonte Roupas e Rimalen Modas.

Suas paixões eram sua família e suas lojas. Para seus funcionários, ele foi mais do que patrão: “O Sr. Badih foi amigo e família de todos nós, que tivemos a oportunidade de dividir um pouco dessa caminhada chamada vida. Nenhuma palavra poderá descrever como sentimos essa perda inestimável. A equipe Rimalen Modas registra aqui, a nossa eterna gratidão e reconhecimento pelo grande homem que o Sr. Badih foi e sempre será em nossos corações”.

Deixa a esposa Mariana e os filhos Georges, Jair, Lamis, Alice e Geni.

Badih nasceu na Aldeia Charbila (Líbano) e faleceu no Rio de Janeiro (RJ), aos 83 anos, vítima do novo coronavírus.

Tributo escrito a partir de testemunho concedido pelos sobrinhos de Badih, Azize Chadraoui e Khalil Chedraoui Cosac. Este texto foi apurado e escrito por Ticiana Werneck, revisado por Lígia Franzin e moderado por Ticiana Werneck em 8 de maio de 2020.