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Carlos Henrique de Moura

1954 - 2020

Não saía de casa sem perfume e só sabia amar de um jeito: cuidando.

Carlos gostava de andar sempre perfumado, mas ainda que recorresse a outras fragrâncias, tinha a sua própria essência feita de amor, gentileza, educação, alegria e um charme que era só seu.

Tinha um carinho especial com a mãe, Dona Léa, a quem protegia como "a chama de uma vela no meio de uma ventania", como escreveu o primo Marcelinho ao lembrar de Carlos. A ligação entre mãe e filho é algo que só pode ser entendido por eles e que fez a família acreditar que, caso seja realmente possível, Carlos segue cuidando e confortando sua genitora de onde quer que esteja.

Não há dúvidas de que Dona Léa ocupou um lugar notável na vida do filho, mas era de se esperar que ela não tivesse sido a única. Carlos era um homem nascido para o amor e não desistiu de vivê-lo, tampouco de encontrar a mulher de sua vida, Miriam, com quem caminhou lado a lado por mais de 14 anos.

Os dois se conheceram porque trabalhavam no mesmo local. Trocavam cumprimentos aqui e ali como quem não quer nada, mas até os outros percebiam que havia interesse mútuo entre eles. Certa feita, Carlos demonstrou toda a sua ousadia indo de encontro à pretendida e lhe roubando um beijo! Miriam lembra que sentiu o coração acelerado e passou alguns dias sem conseguir olhar Carlos por não saber como reagir.

Começou assim a história de dois adultos que viveram uma paixão de adolescente que os uniu para anos de muito companheirismo, felicidades e bem-querer. Enquanto estiveram juntos, aprenderam muito um com o outro, sobretudo pela feliz insistência de Carlos que conseguiu fazer a independente Miriam entender que não fazia mal aceitar o jeito de ser do companheiro que dizia "eu só sei amar desse jeito, cuidando".

Depois que Carlos se foi, um leve afundamento apareceu misteriosamente na testa de sua amada. A investigação médica não apontou nada de errado, mas também não soube explicar do que se trata. Então, para adicionar mais algumas páginas a esse romance, amigos do casal resolveram que a marca é sinal da presença de Carlos que não quer deixar Miriam sozinha.

É de se entender que esse desejo faça algum sentido porque Carlos demorou até encontrar Miriam. Antes de se unir a ela, teve dois relacionamentos que acabaram se transformando em amizade, mas não sem antes transformá-lo em pai. Primeiro, Carlos viu Gabriel chegar ao mundo, aquele que herdaria seu amor pelo futebol e que se tornaria jogador de beach soccer, tendo o pai como fã número um. Depois, foi a vez de Carlinha, a filha que o pai carregaria no colo a vida inteira se pudesse.

De seu casamento com Mônica, Gabriel foi pai de Matheus, o grande orgulho do avô. Carlos dizia que, dessa geração, a criança mais educada era o seu neto e todos aqueles que conheceram os dois poderiam dizer que essa educação vem mesmo de berço, sendo especialmente herdada de Carlos que, por toda a vida, chamou a atenção pelo jeito afável de se dirigir aos outros, mesmo tendo o hábito de falar alto sempre.

Ele costumava chamar os mais próximos de Chiquinha ou Chiquinho e recebia de volta o mesmo apelido que tinha conotação carinhosa. Em seu coração ainda guardava generoso espaço para a "maninha" Eliana e os sobrinhos Dudu e Marquinhos. Era claramente um homem de família e sabia bem a quem acolher como se fosse sangue do seu sangue, como fez com Álvaro, amigo de trabalho que transformou em irmão.

Carlos era um cara querido por todos, desses que, nas palavras de Marcelinho, estão entre os que fazem qualquer um pensar "quando crescer quero ser igual a ele". Talvez tenha sido espelho para os outros porque era muito íntegro e de uma lealdade impecável. Era também uma pessoa de sensibilidade aflorada, chorava de tristeza e de alegria porque sentia tudo intensamente.

Não poderia esconder esse lado sensível nem se quisesse ― mas nem queria mesmo. O seu jeito de ver a vida era condizente com quem sabe ver beleza até em ferro velho. Frequentador de feiras das mais diversas naturezas, Carlos gostava de encontrar coisas diferentes, fosse para reformá-las e transformá-las em algo novo ou para presentear alguém. Quando dava um presente, dizia orgulhosamente que só ele sabia encontrar coisas assim.

Carlos era bastante único. Será lembrado assim pelas pessoas que esperam, um dia, poder ouvir seu característico "faaaala meu camarada" mais uma vez.

Carlos nasceu no Rio de Janeiro (RJ) e faleceu no Rio de Janeiro (RJ), aos 65 anos, vítima do novo coronavírus.

Tributo escrito a partir de testemunho concedido pela esposa de Carlos, Miriam Ferreira de Souza. Este texto foi apurado e escrito por Jornalista Larissa Reis, revisado por Lícia Zanol e moderado por Phydia de Athayde em 7 de outubro de 2020.