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Célia Lopes Bezerra

1942 - 2020

Uma contadora de histórias. Nunca se soube se reais ou inventadas, mas sempre emocionantes e encantadoras.

Esta é uma carta aberta de Giovanna sobre a sua sogra, Dona Célia:

Dona Célia partiu numa manhã chuvosa, sozinha, em um hospital qualquer na Cidade Maravilhosa. Para muito além desse dia sombrio, remeto-me para um tempo muito mais feliz, tempo esse em que andávamos de almas dadas.

A Dona Célia, avó das minhas filhas, minha sogra e minha mãe por mais de vinte anos, era uma mulher à frente do seu tempo. Independente e uma profissional competente. Foi alfabetizadora e tinha como preferência o trabalho com crianças deficientes.

Mãe extremosa e uma avó, no mínimo, incomum – ela fazia “ditado” de palavrões e adorava a companhia das meninas. Ela também foi uma mulher de biquínis pequenos e que nunca obedeceu marido.

A Dona Célia não foi da cozinha. No máximo, de brigadeiros e bolinhos de aipim recheados catupiry. Ela era das músicas (de Ivan Lins, de Roupa Nova) e dos passeios (Búzios, Paquetá, Rio das Ostras, Atacadão de Madureira ou qualquer outro lugar em que a família estivesse junto e muito agarrada nela).

Ela também foi uma artesã. Fazia sandálias fofas enfeitadas com pedrinhas, costurava, bordava e deixava bilhetinhos espalhados pela casa quando recebia a família no retorno das viagens...

A Dona Célia gostava de gente. Gente atuante, divertida, gente que gostava da vida como ela.

Mas ela foi, para mim, principalmente, uma contadora de histórias. A mulher das histórias trágicas, hilárias e/ou enfeitadas. E em cada 'causo' que ela contava, eu nunca consegui saber se as informações eram verídicas ou se continham argumentos floridos para emocionar ainda mais.

Talvez, muito do meu amor pelos livros, contos, fábulas e pela historiografia tenha chegado por meio de suas mãos, enquanto ela me construía para a vida.

Por tanto e por tudo que ela me deu, deixo aqui o registro de uma mulher desafiadora, inquieta e extraordinária. Que ela seja agora, e para sempre, encantada!

Célia nasceu no Rio de Janeiro (RJ) e faleceu no Rio de Janeiro (RJ), aos 77 anos, vítima do novo coronavírus.

Testemunho enviado pela nora de Célia, Giovanna Péterle Bezerra. Este tributo foi apurado por Lígia Franzin, editado por Míriam Ramalho, revisado por Lígia Franzin e moderado por Rayane Urani em 28 de julho de 2020.