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Cleuza Singue Ruy

1936 - 2020

Tinha a capacidade de se reinventar, de lutar, de não desistir ou desanimar diante de qualquer dificuldade.

Cleuza era uma mulher incansável. Desde muito jovem assumiu uma vida de família, quando ajudou a criar seus irmãos até casar-se com Edson Lyrio Ruy, com quem teve dois filhos, Alexandre e Jaqueline. Uma vida de união que durou 56 anos, com alegria, amor e muita luta até os últimos momentos de ambos. Juntos também superaram a perda do filho Alexandre, 15 anos antes: “Não sei como minha mãe resistiu”, nos disse a filha Jaqueline. E assim mesmo, completou a filha, “Ela cuidava, aconselhava e transmitia muita paz”.

“Minha mãe sempre será o grande amor da minha vida”, contou Jaqueline, a filha, que nos informou que o Corona vírus também levou seu pai apenas dois dias depois da partida de sua mãe, acumulando mais e mais dor. “Esse vírus roubou a nossa alegria”. A filha nos relatou que mesmo diante das dificuldades e da dor: “Minha mãe tinha a capacidade de se reinventar, de lutar, de não desistir ou desanimar diante de qualquer dificuldade. Cuidava de tudo, sempre lúcida, ativa; seu corpo e sua mente não deixavam ninguém acreditar que ela já tinha chegado aos 84 anos. Tinha saúde pra viver bem ainda por muito tempo... Era sábia, linda, era minha mãe”.

Cleuza, a quem Edson, seu marido, chamava carinhosamente de “Quezadinha”, também era uma excelente cozinheira. Trazendo a tradição de seu Cachoeiro de Itapemirim, adorava cozinhar. “Rabada, mocotó... ela adorava gordura, churrasco...” Jaqueline nos contou que sua comida dava água na boca só de pensar: “o seu empadão de camarão nunca vi outro igual”. O detalhe importante era que Cleuza fazia questão de ir ao mercado escolher suas compras. Seu café era inigualável. Jaqueline descreveu: “ainda posso sentir o cheirinho do café acordando a gente e o barulhinho da colher no fundo do bule temperando o café gostoso e cheiroso. No dia em que foi internada, ela ainda fez o café, passado no coador de pano, do jeito que ela gostava”.

E no jeito simples de viver, seu passeio preferido era ir ao shopping e decorar com muito bom gosto sua casa, com suas pinturas a mão, seus bordados bem caprichados em ponto de cruz e tecelagem em tapetes. Era uma artista na máquina de costura. Aquele sorriso emanando a pureza e a simplicidade que sua alma traduzia em bondade era sempre o mesmo, seja no cuidado com o marido, com sua cozinha sempre muito limpa e cheirando a café, com suas plantas ou no pudim de leite condensado que ela fazia como ninguém.

“No dia que vi minha mãe entrando naquele hospital, lá estava ela serena com aquela força no olhar que não deixava a gente perceber o que realmente ela estava sentindo, sem choro ela foi indo...indo...até que simplesmente ela sumiu das minhas vistas.
Mãe, eu te amarei pra sempre...está muito difícil continuar sem você...”

Cleuza foi vítima da Covid-19 dois dias antes que Edson se foi. A história dele também está neste Memorial, para conhecer procure por Edson Singue Ruy.

Cleuza nasceu em Cachoeiro de Itapemirim (ES) e faleceu no Rio de Janeiro (RJ), aos 84 anos, vítima do novo coronavírus.

Testemunho enviado pela filha de Cleuza, Jaqueline Singue Ruy. Este tributo foi apurado por Sandra Maia, editado por Sandra Maia, revisado por Fernanda Gmeiner e moderado por Rayane Urani em 6 de agosto de 2020.