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Daniel de Araújo Erédia

1964 - 2020

O dia dele só começava depois de buscar pão fresquinho na padaria e levar para a mãe e a irmã, no trabalho.

Pela família, ele era chamado de Dani. Para os colegas, era o Panela, pois era na panela mesmo que fazia as refeições. A irmã Deise conta que ele “era gente boa e defendia os seus do jeito que fosse preciso”. Nas horas livres, o passatempo predileto era ficar com a família. Também torcia pro time do coração, o São Paulo Futebol Clube.

Ele se entendia com todos. Primogênito na família, cuidava dos irmãos David, Amilton, Deise e Rebeca quando os pais, Milton e Maria Nivalda, saíam para trabalhar. “Ele distribuía as tarefas da casa, separava brigas, fazia comida...”, lembra Deise. Daniel, que gostava de ler, pedia revistas para a mãe e na infância tinha coleção de gibis.

O cuidado que teve com os irmãos foi uma característica que o Panela levou pela vida afora. Adulto, ajudou a criar os cinco filhos pequenos da companheira. Hoje, as crianças já são pais e mães, cujos filhos o chamavam de vô. “Ele os amava demais, não deixava faltar nada”, conta a irmã. O afeto também era dirigido aos sobrinhos Diogo, Leandro, Camila, Renan, Victor, Bruno, Rafael e Felipe.

Foi auxiliar de câmbio quando mais jovem; depois, com dificuldade de conseguir emprego, fazia o que aparecia. Nos últimos anos, atuava como ajudante de pedreiro. E seu dia só começava mesmo depois de garantir o pãozinho para o café da manhã da mãe, da irmã Rebeca e dos colegas de trabalho da irmã. “Depois de ir à padaria, cedinho, deixava o café pronto para a mãe, quando ela acordasse, e saía para levar o alimento para a irmã, no trabalho”. Caso algum colega dela não tivesse comido pãozinho ainda e não pudesse sair para comprar, lá voltava o Dani, na padaria. Só depois ele ia para o seu trabalho.

Entre as recordações que deixou na família, está a visita aos sobrinhos Leandro, Renan e Victor, filhos de Deise, e Rafael e Felipe, filhos de Rebeca, que ele amava como filhos e a quem dedicava imenso carinho.

Sua essência era a de uma pessoa boa, que tinha prazer em ajudar o próximo. “Ele nos socorria em qualquer situação. Se tinha um pneu furado, lá ia o Daniel ajudar. Alguém precisava levar ou buscar as crianças na escola ou no médico? Podíamos contar com ele. Chuveiro estragou ou cano entupiu? O Dani ajuda! Ele deixa muita saudade e um legado de amor”, resume Deise.

Daniel nasceu em São Paulo (SP) e faleceu em São Paulo (SP), aos 55 anos, vítima do novo coronavírus.

Tributo escrito a partir de testemunho concedido pela irmã de Daniel, Deise de Araújo Erédia Santana. Este texto foi apurado e escrito por jornalista Patrícia Coelho de Souza, revisado por Débora Spanamberg Wink e moderado por Rayane Urani em 11 de janeiro de 2022.