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Edvaldo Vilas Boas

1958 - 2020

Como todo baiano, gostava de ouvir samba, o bom e velho samba da Bahia.

De 11 irmãos, só restaram três, duas mulheres e um homem. Esse homem era o baiano Edvaldo, o Di.

Era negro, alto, forte, “não tinha uma gripe sequer, era impressionante a resistência dele”, achavam os familiares. Era uma pessoa bonita, pra cima, sempre feliz. Tinha o hábito de ajudar os outros e chegava a doar suas mercadorias quando via alguém passando necessidade e até mesmo se comprometendo aqui pra ajudar ali. Seus muitos amigos, que o digam. Ajudava muita gente... Mas esse homem segurou várias barras na vida e teve vários problemas, não só pessoais, mas também quando se viu corresponsável em ajudar as irmãs mais velhas que tomavam conta dos irmãos menores.

Trabalhava no comércio, era um mercador. De longe já se ouvia sua voz, que vinha chamando o povo, fazendo brincadeiras ao microfone, para verem as frutas, as verduras, os ovos e temperos que ele e os filhos traziam na Kombi. As pessoas o ouviam de longe e já vinham na janela esperar ele chegar. Rodando por muitas ruas de Salvador, acabou conhecendo muita gente, então já tinha freguesia certa.

Apaixonado pela sua família, viveu com a esposa Dolores Pereira Dias, carinhosamente chamada de Néinha, por mais de trinta anos, mas se casaram no papel apenas dois anos antes de sua partida. Eles tiveram seis filhos, três meninos e três meninas. Apenas duas são “de menor”, os outros todos já estão casados e lhes deram 17 netos. Era um pai e um avô muito preocupado, que vivia ajudando muito. Detalhe: ele quis colocar o nome de todos os filhos com a letra E, para ficar igual a ele... Edvaldo, Edneia, Ednei, Emerson, Evelyn, Eloíse.

“A última vez que eu vi meu irmão foi uns 15 dias antes de ele morrer. A gente fez uma chamada de vídeo, por que ninguém estava se encontrando por causa da pandemia, e ele tava meio assim... pra baixo. Disse que estava sentindo uma dor de cabeça e estava com febre”, diz Valmira. A mulher dele e uma das filhas também estavam com os mesmos sintomas. “Eu estou com chikungunya”, dizia ele, e estava se cuidando para tratar disso, mas não havia ido ao médico ainda. Pensando que não era nada, continuou dentro de casa, e uma semana depois, foi internado.

Os irmãos eram muito próximos e unidos e quando se juntavam para lembrar-se da infância, riam muito. Eram irmãos de verdade, sempre um ajudando o outro.

Ao longo da vida, teve uma história linda de superação devido o uso de drogas. Viveu no fundo do poço, quase ficando louco, mas sua vontade de estar com sua família e, principalmente com sua esposa, motivaram Edvaldo a dar a volta por cima e, de repente, ficou bom e curado. Ficou muitos anos alegrando a vida das pessoas que conviveram com ele, com muita dignidade, e sempre trabalhando muito!

Sua partida foi um baque muito grande. Ele nem soube que seu filho mais velho acabou falecendo também nestes dias. A família toda ficou muito triste com a morte dele, muito triste. Ainda mais desse jeito, sem nenhuma honra, sem ninguém poder se despedir. Esquecer jamais!

Edvaldo nasceu em Salvador (BA) e faleceu em Salvador (BA), aos 56 anos, vítima do novo coronavírus.

Tributo escrito a partir de testemunho concedido pela irmã de Edvaldo, Valmira Vilas Boas. Este texto foi apurado e escrito por Alessandra Capella Dias, revisado por Lígia Franzin e moderado por Rayane Urani em 11 de julho de 2020.