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Elioneide Paulino de Souza

1953 - 2020

Ela, que amava viagens, está agora na maior jornada da sua existência.

Esta é uma carta aberta de Rebecca para a sua mãe, Elioneide:

A minha mãe era uma viajante... Viajou a vida toda pelo Brasil com meus avós. Depois, quando nos teve, seus três filhos, muitas vezes nos levou pelas estradas.

Não era uma mulher muito dócil ou delicada, mas nos ensinou a sermos fortes. Ela sobreviveu a nove AVCs, levantou-se de uma cadeira de rodas e, a cada dia, avançava um passo.

Amava os netos, era vaidosa.

Uma das minhas lembranças era de como meus amigos elogiavam sua beleza. Ainda me lembro do cheiro dela, um perfume que nunca vai se apagar.

Ela sempre pediu que não fizéssemos escândalo e nem sofrêssemos com sua partida. Ela queria alegria e, assim foi.

Gosto de pensar que essa é mais uma viagem dela.

Minha cigana, você sempre vai estar na minha estrada.

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A matéria abaixo foi escrita pela filha Rebecca Souza, em 29/05/2020, para a Revista AzMina:

"Existe uma meia-noite no mundo agora, mas eu acredito que em algum lugar desse mundo alguém está colhendo um ramo da Árvore da Vida e nos trará o amanhecer.

Penteei pela uma última vez o cabelo da minha mãe, antes dela atravessar a ponte desse mundo para o outro.

Meu povo tem uma palavra para isso: pomana, que pode ser usada para vida e morte. Todo dia temos visto pomanas, parece que o mundo é um grande Templo que erguemos aos Senhores e Senhoras do Vale das Lágrimas.

Lembrei-me de quando era pequena. Fui uma criança muito assustada – sinal do ofício religioso que me acompanharia para o resto da vida. Minha mãe dizia que 'estava assombrada'; então, toda primeira sexta-feira, ela penteava meus cabelos, vestia minha melhor roupa e, pela mão, chegávamos à casa de Dona Esmeralda.

Ela era uma senhora com traços acentuados de paraense, com suas saias longas e voz bonita. Dona Esmeralda mandava sentar em um banquinho e, com um ramo de uma árvore (que ela chamava de 'Árvore da Vida') e um livro seguro firme entre os dedos, fazia meus medos escorrerem no chão do seu pequeno sítio.

Depois, enquanto a pequena Rebecca corria atrás de suas galinhas, ela e mamãe conversavam sobre tudo, tomando café. Muitos anos depois, descobri que Dona Esmeralda era a voz principal da igreja Assembleia de Deus, que era perto da casa dela. Sim, era evangélica, firme e fervorosa.

Nunca cobrou nada da minha mãe, aquela cigana de longos cabelos negros, que o povo dizia mexer com coisas que certamente seu pastor não aprovaria.

Também nunca se negou a receber as guloseimas da minha mãe, que cuidadosamente mandava a melhor parte para ela e sua infinidade de netos. Como ela mesma dizia: 'Deus lhe deu a sina de criar de crianças', como muitas outras mulheres de nosso Brasil.

Nunca achei que Dona Esmeralda fosse 'bruxa'. Ela era cristã e chamamos as pessoas pelos seus nomes. Ela era uma pessoa que curava. Encontrei muitas assim em minha vida.

Com 30 anos, padeci do pior mal da minha vida: um coração partido. Destroçada, fugi do país para esquecer aquilo que me consumia viva. Somente para descobrir que, em qualquer parte do mundo, seria meia-noite para mim.

Até que um dia esbarrei nele. Era negro, senhorzinho já. Com seu chapéu roto, disse ver minha dor. Deu-me um alho em minha mão e disse que quando estivesse pronta, levasse o alho de volta a ele. Um dia subi até sua casa, em um vilarejo pobre nos arredores de Santiago (no Chile), contei minha dor, a ingratidão personificada em outro corpo, a vingança que me consumia.

Sorrindo e sem tirar seu cachimbo da boca, ele segurou minha mão e murmurou palavras antigas. A dor naquele dia se esvaiu e do amor só sobrou uma cicatriz na alma e o pedaço da meia-noite dentro de mim.

Mas também houve os 'doutores e doutoras de canudo', os médicos com formação, esses, principalmente, me ajudaram com minha mãe. A cada dia que a vida dela definhava, eles vinham, seguravam em minha mão e diziam: 'mais um dia para ela, vamos trazer mais um amanhã para ela'.

Uma imagem que sempre me fixava era o bastão de Esculápio em seus jalecos. Pra quem não sabe, os primeiros médicos e médicas da história eram sacerdotes e sacerdotisas do Templo de Esculápio, o Deus grego da cura. É interessante que o símbolo da cura seja uma serpente, pois era ela que sussurrava a cura aos que ali presidiam.

Quem diria que, séculos depois, nem a serpente poderia espantar a ignorância que permeia aqueles que se apegam a acreditar em 'fascismos fascinantes', que deixam gente ignorante fascinada. E, seja com seus alhos ou jalecos, imagine como realmente é um sacerdócio lutar para que uma família possa sorrir e dizer que sua pessoa amada recebeu alta.

Existe uma meia-noite no mundo agora, mas eu acredito que em algum lugar desse mundo alguém está colhendo um ramo da Árvore da Vida e nos trará o amanhecer.

Dedico esse tributo a todos os profissionais de saúde e a todos e todas que, com suas egrégoras de saúde, dedicaram-se a cuidar de minha mãe. Na sua partida, só me veio à mente ela dançando a sua música preferida, da sua amada Clara Nunes: 'Adeus, meu amor, não me espera, porque já vou embora, pro reino que esconde os tesouros de minha senhora'.

Que a senhora esteja dançando neste reino, minha mãe!"



Esse tributo foi escrito durante o período de "Pomana", por isso a cidade de nascimento de Elioneide não é citada, para que seu espírito se desligue logo da terra.

Elioneide nasceu em (não informado) e faleceu em Belém (PA), aos 67 anos, vítima do novo coronavírus.

Testemunho enviado pela filha de Elioneide, Rebecca Souza dos Santos. Este tributo foi apurado por Lígia Franzin, editado por Lígia Franzin, revisado por Lígia Franzin e moderado por Rayane Urani em 22 de setembro de 2020.