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Expedita Alves Melo Ripardo

1942 - 2020

Foi amor e foi lição. Se era pra dar carinho, dava. Se era pra castigar, sabia dar uns cocorotes.

Expedita, que era carinhosamente chamada de dona Exper, era uma guerreira, corajosa, cheia de amor e fé, que saiu de seu Ceará ainda muito jovem para tentar a vida no Rio de Janeiro, carregando seus filhos. Enfrentou crises e batalhas na cidade grande, muito pobre e vivendo em um barraco numa comunidade, onde não tinha muitas alternativas a não ser: resistir.

Desde que chegou ao Rio, Expedita trabalhou como empregada doméstica durante muito tempo em uma residência em que era chamada de dona Quitéria, o que a divertia muito. Os empregadores receberam sua família com respeito e amizade, sempre ajudando, inclusive na alfabetização de alguns de seus filhos.

A vida de Expedita foi um acúmulo de lutas ao longo do tempo. Vinda de uma grande pobreza, passando por uma tuberculose que a desenganou, até a gravidez após os 40. Exper fez da vida um recomeçar constante, dando lições de vida, de coragem e de fé a quem quisesse aprender. Sempre disposta a ajudar os filhos, os netos e sobrinhos. Pôs no mundo dez filhos, mas quis o destino que quatro deles lhe fossem levados. Seus filhos Charle, Antônia, Gisele, Lêda e Jaqueline relatam uma vida de muito sofrimento de sua mãe Expedita, mas recordam-se, com orgulho, dessa mãe que nunca se deixou abater por obstáculos, que era sempre um grito de encorajamento, um “levanta e corre atrás, que amanhã é outro dia”, como nos contaram.

Exper era a alegria da família. Corria a cada chamado e nunca via dificuldade em socorrer filhos e netos. O marido Sebastião, o Tião, conhecido pela paixão pelo Botafogo, fez Expedita ficar famosa no bairro, como a “esposa do botafogo”. Ela se divertia com o apelido e dava boas gargalhadas. Rir era sua filosofia de viver. Expedita tinha fé na vida e não dava mole para a tristeza. No quintal, suas galinhas engordavam o almoço, o lanche e o orgulho de ser alguém do sertão. Talvez daí viessem suas manias: “uma que era de pegar a ponta do vestido e ficar fazendo uma bolinha e ficar amassando. A outra, era pegar aquelas pedrinhas bem pequenininhas, colocar na boca e ficar rolando pra lá e pra cá”, contou a filha Lêda. A filha Gisele contou que a mãe era o conselho certo, a voz que todos esperavam quando nada ia bem, a mão firme quando era preciso mudar o rumo, “tomar juízo na vida”. A nora Maria, esposa de Charle, diz que foi recebida como filha.

As netas Thainá e Adriana falam com muito carinho da avó Expedita, vó Exper. Ambas conviveram muito de perto com a avó e têm lembranças muito íntimas, que são sempre muito próprias da relação avó-netas. Contam de como gostavam de pentear seus cabelos, já branquinhos. Thainá lembra bastante de como Exper a livrou dos medos da infância: “achava graça quando ela dizia 'Diacho' — é impossível ouvir isso e não se lembrar dela — ou 'Pau de dar em doido', que significa gente corajosa”. As netas contaram as presepadas que faziam quando a avó ia visitá-las: “Eu escondia os sapatos da vovó pra ela não ir embora”. Thainá contou que não podia sair de casa sem que a avó não ficasse no portão esperando sua volta. Adriana contou sobre quantas vezes a avó a livrou de alguns castigos da mãe.

As filhas de Expedita, no entanto, comentaram que na hora do castigo com elas — as filhas, Expedita dava uns bons cascudos de corretivo e ninguém podia se meter. Era a lei da educação de Expedita. Filhos e netas contaram: “Os 'nãos' que ouvimos foram muitos e formaram nosso caráter. Mas quando era para nos defender, ela pegava a gente pelo braço e ia lá tirar a verdade a limpo, e dizia: 'se for verdade, você vai apanhar, mas se for mentira, quem te acusou vai ouvir uns desaforos'”. A filha Jaqueline lembrou-se ainda que: “Quando a gente estava errada, a gente levava umas lapadas mesmo. Mas todas essas lembranças foram de ensino. Valeu muito a pena cada minuto com ela”.

Os filhos não entendem como a mãe teria sido contaminada, mas relembram que, mesmo doente, Expedita não perdeu o bom humor e a fé e pediu que continuassem a ter juízo.

Expedita nasceu no Ceará e faleceu no Rio de Janeiro (RJ), aos 78 anos, vítima do novo coronavírus.

Testemunho enviado pelo filho de Expedita, Charle Alves Melo. Este tributo foi apurado por Viviane França, editado por Sandra Maia, revisado por Lígia Franzin e moderado por Rayane Urani em 11 de julho de 2020.