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Fábio José Pessanha Leandro

1976 - 2020

Generoso e cuidadoso, era o dindo amado das crianças, o master chef dos irmãos e o companheiro de Renata.

Primogênito de quatro filhos do casal Regina e Bebeto, também vítimas do novo coronavírus, Fábio tinha uma alegria contagiante, responsabilidade acima da média, preocupação com o bem-estar de todos que o circundavam.
Segundo o irmão Roberto, Fábio tinha um “coração infinitamente maior que o peito, era capaz de deixar de ter ou consumir algo para ajudar o próximo. Seu nome podia ser Generosidade”.

Cuidava dos pais como se fossem “seus filhos”, conta o irmão. “Levava-os nas consultas médicas e dispunha-se a acompanhá-los em internações hospitalares”.

Fábio, Fabinho, Bibinho, Baio, Zezinho, 01, Patrão, Dindo Fábio... Eram infinitos títulos regados de afeto. Mas o que ele demonstrava mais gostar de ser chamado era de Dindo Fábio — desde seu primeiro afilhado, Luccas, a quem esse dindo presenteava com bonecos, até o último afilhado, Enzo, a quem apelidou de Teteco. “Todos eram apaixonados pela figura do Dindo Fábio!”, assegura o irmão.

O cuidado e a preocupação de Fábio estendiam-se a todos os seus sobrinhos. “Ficava doido se soubesse que algum deles estava com uma simples gripe”, lembra Roberto. “E se precisassem de cirurgia então, ele questionava se era mesmo necessário, se não haveria outra alternativa, com seu constante receio em ver um de seus sobrinhos sentir qualquer desconforto. Em véspera de cirurgia, ele não dormia, amanhecia na porta da casa do sobrinho para levá-lo ao hospital, e não sossegava enquanto não o visse no quarto para certificar-se de que estava tudo bem” — o que era mais um motivo para presenteá-lo ainda durante a internação.

Roberto afirma que as crianças, seus sobrinhos e afilhados, eram a razão de viver do irmão. “Não tinha criança que não se rendesse aos seus encantos, logo se enrolavam em suas pernas e pescoço, fazendo crescer a legião de fãs do Dindo Fábio”.

Assim como a mãe, Fábio cozinhava muito bem. Desde menino preparava suas comidas sem depender dos adultos. Fazia os cardápios das festas em família e a lista do material necessário. E, em reuniões familiares imprevistas, “sempre tinha uma carta na manga como o delicioso caldo verde que fazia comer até aqueles que não gostavam de couve, sempre com muita fartura”, lembra o irmão.

“Era nosso mestre-cuca”, declara Roberto. “Às vezes, nos ligava já tarde da noite pedindo que descêssemos do apartamento e o encontrássemos na rua, na porta de casa, onde ele, como se fosse um motoboy, nos entregava alguma coisa que preparara e ia de casa em casa, de nós, irmãos!”

Fábio também gostava de participar das reformas nas casas dos irmãos. “Se houvesse uma alteração que precisássemos fazer em nossas casas, nada era feito sem sua opinião. E, se assim acontecesse, ele era o primeiro a dizer que não gostou, mostrando sua sinceridade exacerbada”, relata Roberto.

Seus amigos não eram simplesmente amigos, viravam membros da família. Essa família ampliada passava finais de semana e, às vezes, férias na praia.

Ter uma casa na praia foi um dos últimos desejos realizados por Fábio. Lá conseguiu reunir algumas vezes os pais, os irmãos, seus amados sobrinhos e afilhados, alguns amigos mais íntimos e “sua Renata”. Conta Roberto que Renata era o “ponto de apoio” de Fábio, sua “fiel escudeira”, sua “companheira de vida”.

Nesses encontros, não podia faltar o sorvete — uma das sobremesas preferidas de Fábio — e a carne de hambúrguer gourmet, feita artesanalmente por Fábio, com carnes escolhidas a dedos por ele no supermercado e preparada na churrasqueira “porque o sabor da carne de hambúrguer na brasa era inigualável”, repete Roberto os dizeres do irmão “master chef”.

Fábio aprendeu a dirigir logo cedo. Era amante de carros — “sempre bem-cuidados”, lembra o irmão. E foi Fábio quem auxiliou os irmãos, os amigos e Renata na direção.

Após trabalhar em setores da construção civil, telefonia celular e vendas, Fábio resolveu abrir seu próprio negócio. Auxiliado pelo cunhado, Fábio conseguiu levar à cidade uma franquia de bolos. “Acompanhava cada fornada, e ficava zangado quando algum bolo não saía no padrão estipulado”, conta Roberto. “Era querido pelos seus colaboradores. Não tinha empregados e sim amigos de trabalho. E assim todos o consideravam”, complementa o irmão.

Segundo a amiga Millena, que também participa dessa homenagem, Fábio “não era um patrão, era um amigo, sempre muito presente em nossas vidas. Era generoso, alegre, divertido e genioso, mas nos encantava com sua simpatia”.

Em sua última atitude generosa, Fábio fez questão de acompanhar inicialmente a mãe e depois o pai na internação hospitalar em função da contaminação pela Covid-19. Ele queria poupar os irmãos e proteger os sobrinhos de qualquer contaminação.

Após retornar para casa e preocupado com a situação dos pais, Fábio começou a apresentar sintomas de contaminação. Ficou isolado em casa com apoio de Renata e começou a tomar a medicação indicada pela médica que o assistira. Numa sexta-feira à noite, conta Roberto que, “após passar um dia angustiante, pois estávamos com nossos pais internados, ambos intubados e correndo riscos inerentes aos quadros apresentados, Fábio pediu que Renata o levasse ao hospital, pois não estava se sentindo bem. Como era de se esperar, pediu que Renata saísse dali, pois corria risco de contaminação. Ao entrar na UTI, para onde foi diretamente levado, ele a olhou e disse ‘Até breve’”.

Millena, a amiga, parece ainda esperar esse retorno. “Há qualquer momento, ainda acho que vou lhe encontrar, que vou passar na loja e você estará lá... Te amo, meu eterno amigo”.

Roberto finaliza a homenagem ao irmão dizendo que “esse ser iluminado nos deixou e, com ele, nossos corações tiveram parte arrancada, dilacerada, deixando feridas para sempre”. O que conforta Roberto, a família e os amigos é saber que, apesar de Fábio ter partido cedo, aos 44 anos, foram anos bem-vividos...

A mãe Regina faleceu dias antes e o pai Bebeto dias depois de Fábio.

“Temos três guerreiros juntos ao Papai do Céu”, conclui o irmão.

Regina Márcia Pessanha Leandro e Roberto Passos Leandro, o Bebeto, também têm um tributo em sua homenagem aqui no Inumeráveis.

Fábio nasceu em Campos dos Goytacazes (RJ) e faleceu em Campos dos Goytacazes (RJ), aos 44 anos, vítima do novo coronavírus.

Testemunho enviado pelo irmão e pela amiga de Fábio, Roberto Passos Leandro Júnior e Millena. Este tributo foi apurado por Andressa Vieira e Lígia Franzin, editado por Denise Stefanoni, revisado por Lígia Franzin e moderado por Rayane Urani em 13 de outubro de 2020.