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Fernando Lana

1948 - 2021

Após se aposentar, esse jornalista continuou a fazer sucesso no blog criado por uma de suas maiores fãs, a filha.

Quase que um dos grandes nomes do jornalismo mineiro não chega nem à adolescência. Fernando Lana sempre contava que por pouco não havia morrido depois de ser picado por um escorpião na infância. Com seu dom para contar histórias, amava narrar esse episódio, era o ápice dos causos. A meninice repleta de brincadeiras também lhe deixou cicatrizes que carregava com orgulho. Elas lhe faziam lembrar como fora um menino feliz e travesso.

Na juventude, usava o cabelo igual ao dos Beatles. O estilo era um escândalo para a época, principalmente na pequena cidade em que morava, Conselheiro Lafaiete, Minas Gerais. O penteado era o reflexo de seu apreço por música, e ele mostrava às irmãs as canções que mais curtia.

Todos os momentos da vida de Fernando foram embalados por uma trilha sonora. Até depois de partir, aliás, as suas músicas preferidas acompanharam as lembranças que deixou. As filhas, Lígia e Fernanda, criaram uma playlist para celebrar a memória do pai. Sinatra, Carpenters, Abba, The Mama & The Papas, Nat King Cole, Burt Bacharach são heranças musicais para as duas.

"Quando eu era pequena, ele chegava do jornal e eu corria com o violão para meu pai tocar para mim. Aprendi o instrumento por influência dele", conta a filha Lígia.

Fernando Lana saiu de Conselheiro Lafaiete para estudar Jornalismo em Viçosa, Minas Gerais. Mas, no primeiro ano, pediu transferência para a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em Belo Horizonte, onde viveu o restante da vida e escreveu belos capítulos de sua história.

Lana foi uma referência na área. Trabalhou no Jornal de Minas, Estado de Minas, TV Globo e Alterosa, além de ter passagens pelo Diário do Comércio e pelas sucursais da Folha de S. Paulo e O Globo. Também passou com destaque por grandes assessorias de imprensa.

Depois de aposentado, a profissão tornou-se hobby. A filha Lígia teve a ideia de criar o "Blog do Lana", onde ele escrevia diariamente e era um sucesso de audiência.

Nas reportagens que noticiaram a partida de Fernando, muitos colegas o consideraram um professor, responsável por transmitir sua experiência a jovens jornalistas.

Fernando Lana também fez amizades verdadeiras e longas no jornalismo. Lígia conta que ela e a irmã cresceram cercadas pelos colegas de trabalho do pai. Um deles, Fernando Magaldi, acompanhou Lana até os últimos dias. "Ele relembrou que eu pedia para ele me ligar do jornal para conversarmos, quando eu era criança. Nossa convivência com a turma da redação era muito forte."

Lana também influenciou os caminhos profissionais de Lígia. Apesar de nunca ter atuado em redações, ela fez graduação em Jornalismo e mestrado em Comunicação. "No fundo, éramos dois contadores de histórias", conclui.

Outra herança que ela e Fernanda receberam foi o amor ao Cruzeiro. Lana esteve com as filhas no Mineirão em dia de recorde de público no estádio. A raposa e o Vila Nova disputavam a final do Campeonato Mineiro de 1997. O trio foi pé-quente: o Cruzeiro venceu por 1 X 0 e ganhou o título. Ao mesmo tempo em que Lana tinha cuidado em proteger suas meninas no Gigante da Pampulha, vibrava pelo time com fervor. Andava, nos últimos tempos, triste com a crise no clube celeste, o que era um problemão, pois dizia: "Não gosto de futebol, meu negócio é o Cruzeiro".

Lígia considera a paixão pelo time, o Jornalismo e a música as principais memórias do pai. Já Fernanda faz piadas com tudo, igual ao Lana. Herdou também a mesma acidez do pai em suas tiradas.

Tudo na voz dele ganhava graça, até as coisas mais triviais. Nos últimos tempos, narrava em detalhes o intrigante caso de um animal que estava "visitando" a casa à noite. "Podia ser uma simples história, mas ele floreava muito. Nesse caso, narrava o passo a passo do animal misterioso que comia na cozinha e sumia sem que eles entendessem. Após 15 dias, com a ajuda de um vizinho, descobriram se tratar de um gambá", conta Lígia.

Ao contrário do visual da adolescência, na fase adulta trazia o cabelo sempre aparado e fazia a barba todos os dias. Tinha mania de organização.

Foi casado duas vezes. A primeira com a mãe das filhas e a segunda com Getúlia. O respeito e a consideração da primeira esposa mantiveram-se após a separação. Com Getúlia, ele vivia em plena harmonia. "Ele era muito família. Sempre marcante e engraçado", conta a filha.

Lana, que tantas histórias contou, agora tem a própria trajetória relembrada por aqueles que o amavam. O legado estará sempre vivo.

Fernando nasceu em Conselheiro Lafaiete (MG) e faleceu em Belo Horizonte (MG), aos 72 anos, vítima do novo coronavírus.

Tributo escrito a partir de testemunho concedido pela filha de Fernando, Lígia Lana. Este texto foi apurado e escrito por jornalista Talita Camargos, revisado por Fernanda Ravagnani e moderado por Rayane Urani em 15 de julho de 2021.