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Gabriel Souza Soares

1995 - 2021

Gabriel cumpriu como professor a máxima do inesquecível Paulo Freire: "O educador se eterniza em cada ser que educa."

Essa é uma carta aberta do irmão, Normam, para seu amado Gabriel:

Gabriel trouxe alegrias desde o primeiro dia de vida. Lembro de nossos pais chegando com ele nos braços, tão pequenininho. Nosso pai tinha tanto cuidado que o colocava para dormir sobre o peito e ele dormia por horas. Mais tarde, enquanto nossos pais trabalhavam, cabia a mim a responsabilidade de cuidar dele após a escola, passávamos a tarde jogando em um Master System III, ele adorava Sonic, sempre esperto e inteligente.

Infelizmente, como acontece em muitas famílias, a nossa passou por momentos muito difíceis, e Gabriel se tornou um gigante, tamanha a força que desenvolveu. Nossa mãe descobriu uma doença gravíssima, e meu irmão, mesmo lutando pelos seus objetivos, estudando e trabalhando, tomou para ele a responsabilidade de cuidar dela; e cuidou melhor que ninguém jamais poderia cuidar.

Sempre muito inteligente, dedicado, esforçado e determinado, lutava contra o preconceito de uma sociedade que emana violência contra pessoas que apenas desejam ser quem são, e mesmo diante de tantos motivos para desistir, ele formou-se em Letras Vernáculas, pela Universidade Federal de Sergipe, com excelentes referências dos seus professores, por ser um dos melhores de sua turma.

Dez anos depois de nossa mãe ter descoberto uma cardiopatia grave, quatro cirurgias e muitos momentos de medo, em 2020, Gabriel passou na seleção do Mestrado em primeiro lugar. E mais uma vez encheu o coração de nossa mãe de alegria e orgulho.

Um menino, um homem, um professor, um mestre. Gabriel era um leitor ávido. Devorava livros, amava literatura, musica, amava lecionar. A paixão dele por ensinar era vista em seus olhos quando ele gravava suas aulas, preparava seus conteúdos, conversava com seus alunos. Era tão claro que aquele era seu destino, não havia um só aluno que não tivesse tanta paixão por aquele professor que tratava seus alunos com o carinho e respeito que na maioria das vezes as pessoas não davam a ele.

Ele vivia realmente um sonho, vivia com nossa mãe, e continuava cuidando dela como se fosse sua filha, eram noites de companheirismo, "maratonando" séries nas folgas dele, preparando aulas juntos. Era uma festa só quando o resultado do ENEM dos seus alunos saía, não havia um só que tirasse notas baixas, alguns inclusive atingiam a nota máxima nas redações e todos o homenageavam com gratidão.

Um menino doce, gentil, que não se negava a ajudar ninguém, nunca, mesmo aqueles que já o tivessem ferido. Em Janeiro de 2021 comemoramos seu último aniversário, em um dia só foram tantas homenagens, alunos, professores, colegas, e ele sorriu, cantou, dançou com a alegria de uma criança. Demos nosso último abraço.

Infelizmente a pandemia se agravou muito, governantes negligentes em suas decisões. Vacinação atrasada. E para agravar a situação dele, assim como de inúmeros professores, o governador autorizou o retorno às aulas presenciais. Gabriel não estava vacinado, não havia calendário de vacina para professores ou para a idade dele, e com pavor estampado em seus olhos, ele retornou às aulas. E lamentavelmente foi infectado. Gabriel mais uma vez lutou como o guerreiro que sempre foi.

Nos deixou após uma luta que travou com toda sua força, e partiu para o lugar lindo e sem sofrimento que ele merece. Pois mesmo com sua breve história de 26 anos, meu irmão viveu intensamente, doou-se a tantas pessoas, ajudou, orientou, abdicando de si mesmo para dar amor e carinho a todos aqueles que eram carentes desse cuidado; principalmente nossa mãe.

Gabriel recebe homenagens de todos que tiveram a grata oportunidade de conhecê-lo, e eu tento aqui nesse texto, apresentar um pouco da história dele, que mesmo sendo meu irmão mais novo, me ensinou tanto e que me inspira a ter a mesma coragem e determinação que ele teve. Infelizmente Gabriel foi mais um das centenas de milhares de vitimas da negligência e da incompetência desse governo nefasto, que não lutou para vacinar seu povo, não propagou o cuidado e a prevenção. Gabriel não está mais entre nós fisicamente, mas sua história, seu legado, sempre, sempre estará entre nós! Professor Gabriel Soares: Presente!

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Homenagem da aluna Ana Cristina Loubacker Amim

Um professor de Língua Portuguesa que lecionava esperança e perseverança. Passou em primeiro lugar no Mestrado da UFS sobre Foucault, mas também esteve na primeira colocação como filho exemplar e amigo presente. Acreditava na educação como ferramenta de libertação. Contraiu o vírus no retorno às aulas presenciais quando exercia com paixão seu ofício.

Gabriel nasceu em Aracaju (SE) e faleceu em Aracaju (SE), aos 26 anos, vítima do novo coronavírus.

Testemunho enviado pelo irmão e pela aluna de Gabriel, Normam Santos Soares Junior e Ana Cristina Loubacker Amim. Este tributo foi apurado por Larissa Reis, editado por Gabriel Souza Soares e Ana Cristina Loubacker Amim, revisado por Ana Macarini e moderado por Ana Macarini em 13 de dezembro de 2021.