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Genizarete Justino dos Santos

1952 - 2020

A gentileza, a doçura, a doação e o amor ali. Com agulha e linha na mão, Genizarete vestia rainhas.

Nasceu numa família humilde, que passava fome. A irmã mais velha de sete irmãos. Se doou para mantê-los bem. Se doou para manter e sustentar sua família e seus três filhos homens. Com apenas linha e agulha na mão trabalhou desde cedo. Só soube amar. Mesmo diante das adversidades: ela foi amor no desamor, foi força na fraqueza... foi gentileza em meio à grosserias. Era a matriarca da nossa família, que agora está órfã, estamos órfãos e vazios.

Talita, sua sobrinha, fez pra ela um poema sobre o vazio. Sobre o quão difícil tem sido vivenciar e aceitar essa perda repentina, sem despedida, sem o último adeus, sem olhar pela última vez, mesmo que fosse em um caixão. É triste demais essa pandemia, é triste ela levar tantos de nós.

Poema por Talita Rosa:

"O vazio é um aglomerado da presença"

Agora o vazio
E o vazio só existe onde antes houve enchente
E houve enchente
No pior lugar... o coração
Antes transbordante, agora... vazio.

Como pode o vazio doer tanto?
Me ensinaram trocado
Não há nada
Mais aglomerado, entupido, lotado do que o vazio.

Como pode o vazio ser leve... e pesar tanto?
Me ensinaram trocado
Não há nada mais pesado do que tentar afastar o vazio.

Que lugar nenhum suporta
Se não teu corpo.
Que lugar nenhum se aquieta
Se não teus braços.
Que lugar nenhum se encontra
Se não teus olhos.

Nada é tão obscuro, triste e entupido que o vazio. Cabe tanta coisa no vazio.
Antes enchente agora só vazio.

O vazio angustiante e aglomerado da falta que a sua presença me causou.

E agora vazio... ausente
Agora e pra sempre um vazio inteiro cheio de você.

Genizarete nasceu São Paulo (SP) e faleceu São Paulo (SP), aos 68 anos, vítima do novo coronavírus.

História revisada por Rayane Urani, a partir do testemunho enviado por sobrinha Talita dos Santos Rosa, em 30 de abril de 2020.