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Geraldo de Assis de Souza

1936 - 2020

Leal ao amigo preso durante a Ditadura Militar, levava em seu caminhão a família toda para as visitas de domingo.

Naquela remota manhã de domingo, há mais de meio século, Geraldo encostou seu caminhão Internacional D30 em frente ao número 926 da Rua Conde de Linhares, em Belo Horizonte. Era dia 5 de abril de 1964 e a meninada de Antônio Holandino e Conceição Batista, não foi à missa naquele domingo: estavam todos ansiosos para a primeira visita ao pai que estava preso e incomunicável no DOPS de Belo Horizonte desde 1º de abril, dia do golpe empresarial-militar que lançou o Brasil nas trevas da ditadura por 21 anos.

Geraldo de Assis de Souza, o Geraldo Canjica — sabe Deus quem o apelidou de Geraldo Canjica, para diferenciá-lo dos outros geraldos (Geraldo Goiaba, Geraldo Goela, Geraldo Garrafa, Geraldo Ferrugem, Geraldão e Geraldino) os velhos companheiros da Ponte do Saco, estacionamento de caminhões de aluguel – nasceu em 20 de abril de 1936, em Serro, Minas Gerais, terra do queijo, plantada no alto da Serra do Espinhaço.

Geraldo Canjica, em 1953, emigrou para Belo Horizonte e trabalhou como instrutor na Autoe-escola Ford 29, até aproximar-se dos conterrâneos Florestano Araújo, que lhe deu emprego de chofer no seu caminhão e Antônio Araújo que lhe vendeu depois, a prestação, o caminhão Internacional D30.

Geraldo Canjica, em 1964, o ano das perseguições, assassinatos, torturas e prisões de milhares de brasileiros, não se rendeu ao temor e à covardia cruel dos gendarmes da ditadura militar. Durante 51 domingos, de 5 de abril de 1964 até 20 de dezembro de 1964, corajosamente, transportou em seu caminhão a família de Antônio Holandino e amigos da família, de Belo Horizonte para Neves para visitá-lo e levar solidariedade, a ele e a dezenas de presos políticos como Dazinho, vereador cassado, Sinval Bambirra, deputado cassado, João Luzia, sindicalista, professor Rubinger da UFMG.

A vida foi seguindo e Geraldo se casou tendo três filhos. Todavia, sempre foram grandes as dificuldades financeiras para motoristas autônomos de caminhões de aluguel. Isto levou Geraldo a buscar emprego na empresa Translopes e passou a transportar cimento da cidade mineira de Matozinhos para Brasília, que ainda estava sendo construída.

Como a Terra não é plana e o mundo dá muitas voltas, numa delas nosso herói se cansou das extensas e demoradas viagens, deixou os perigos das milhares de léguas de estradas e foi trabalhar na empresa São Bernardo, de ônibus urbanos, como motorista noturno.

Nas cansativas, monótonas e sonolentas viagens pelas longas madrugadas durante vinte e dois anos, conheceu Edna da Cruz de Souza que lhe despertou um amor latente e hibernante, retirando-o da letargia amorosa para o vigor do afeto, devoção, zelo, cuidado e amizade. Separou-se da primeira esposa para dedicar-se à paixão por Edna até o fim da vida.

Muitos anos se passaram. Morreu Antônio Araújo, morreu Florestano Araújo, mas a admiração, carinho e amizade de seus filhos permaneceu nos corações, nas lembranças e na gratidão por um homem que não se amedrontou com os criminosos da Ditadura de 1964, mas sucumbiu no dia 17 de setembro de 2020 por conta de um vírus mortal apelidado de Covid-19.

Geraldo nasceu em Serro (MG) e faleceu em Belo Horizonte (MG), aos 84 anos, vítima do novo coronavírus.

Testemunho enviado pelo amigo de Geraldo, Florestano Herbert de Araujo. Este tributo foi apurado por Lucas Cardoso , editado por Florestano Herbert de Araújo, revisado por Ana Macarini e moderado por Ana Macarini em 17 de janeiro de 2022.