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Gilberto Rodrigues Serra

1944 - 2020

Funcionário padrão, mas, mais do que isso, um pai amoroso e homem correto.

Homem correto, engraçado e cheio de amor pela família. Funcionário exemplar, daqueles que chega na hora e não perde um dia de trabalho. Marido amoroso de Suely Maria com quem esteve junto durante quase 50 anos. Pai extremamente orgulhoso de Fabio e Kátia, tinha um coração tão grande que, para ele, o sobrinho Paulinho era tão filho quanto os seus próprios e, por isso, dedicava ao rapaz o mesmo expressivo amor. Avô de Gael e Gabi, com quem viveu lindos momentos. Faltam palavras para descrevê-lo, até mesmo “as mais difíceis e engraçadas, daquelas que o coroa falava e só entendemos ao olhar no dicionário”, segundo Fabio.

Sempre fez de tudo pelos filhos. Seu orgulho era tanto que não perdia a oportunidade de enaltecê-los em cada conquista. Se Fabio, por exemplo, comprasse um carro novo, seu Gilberto não perdia a oportunidade de se gabar dele, por pura admiração. “Meu pai era meu maior fã. Às vezes, eu ficava envergonhado, mas ele não fazia por maldade.” Não tinha jeito: o amor era tanto que transbordava de seu corpo em forma de declarações explícitas de afeto.

Amor esse que era dividido unicamente com apenas mais um “ente querido”, cujos nome e sobrenome são: Fluminense Futebol Clube. Em sua juventude, quase chegou a ser jogador profissional da Portuguesa do Rio, mas a vida o levou para outro caminho. O limite das quatro linhas do gramado era pouco para tudo que esse tricolor apaixonado poderia conquistar. Trocou o campo de futebol para dedicar-se a outro tipo de terra.

Ao longo de 35 anos, trabalhou como funcionário público no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) do Rio de Janeiro. Foi, inclusive, homenageado com uma placa de “funcionário padrão” pelo Incra, uma maneira de registrar e agradecer pela completa dedicação e excelência no desempenho de sua função. Não admitia que falassem mal de funcionário público. A honestidade era ponto de honra para seu Gilberto. Encostar a cabeça no travesseiro no fim do dia com a consciência tranquila de seu caráter era a única maneira de fazê-lo dormir.

Conhecido pela rua inteira, não tinha quem não gostasse desse homem engraçado, dedicado e altruísta. Uma simples ida ao mercado, por exemplo, rendia deliciosas conversas com quem quer que encontrasse. Se a carreira de funcionário público não tivesse dado certo, a atividade política estaria o aguardando com avidez; talvez fosse eleito por sua incrível capacidade de se comunicar, por seu carisma; e acabaria sendo um excepcional representante do povo, tamanho era seu compromisso com a honestidade.

As duas horas de distância entre Irajá – bairro localizado na Zona Norte do Rio de Janeiro – e seu trabalho, no Centro, não eram justificativa para nada. Todo santo dia, seu Gilberto se punha a sair de casa às 5 horas da manhã rumo ao trabalho.

Vez ou outra, quando criança, Fabio ia junto para passar no dentista no trabalho do pai. Lembrança guardada com muito carinho. Acordavam de madrugada, iam de ônibus e só eram atendidos após horas de espera. Muito se engana quem acha que seu Gilberto deixaria o trabalho para levar o filho de volta para casa. Os dois voltavam juntos de ônibus após o expediente, com Fabio deitado na perna do pai e babando em sua calça de tanto sono.

Com os filhos formados e tendo seus netos, seu Gilberto cumpriu o dever de casa. A distância física nunca foi capaz de separar essa família de estarem presentes na vida uns dos outros. Não será qualquer outra que o fará. Sua missão aqui foi cumprida com louvor e o troféu mais valioso que ele conquistou foi a família. Com certeza continuará sendo exibido por aí, lembrando sempre de apagar a luz ao sair – afinal, ainda não é “sócio da Light”.

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Uma homenagem ao sobrinho de Gilberto, Wagner Raimundo da Silva, também se encontra neste memorial: https://inumeraveis.com.br/wagner-raimundo-da-silva/

Gilberto nasceu no Rio de Janeiro (RJ) e faleceu no Rio de Janeiro (RJ), aos 76 anos, vítima do novo coronavírus.

Tributo escrito a partir de testemunho concedido pelo filho de Gilberto, Fabio Rodrigues Serra. Este texto foi apurado e escrito por Jornalista Marina Teixeira Marques, revisado por Gabriela Carneiro e moderado por Rayane Urani em 8 de outubro de 2020.