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Guaraciaba Aparecida de Souza Naranjo

1949 - 2021

Gravava fitas cassete com o conteúdo das aulas que o filho tinha mais dificuldade, para ajudá-lo no aprendizado.

Guara, Ma, Dadá, Daquinha. Eram muitos os apelidos carinhosos de Guaraciaba. Nascida e criada no Ipiranga, seu Bairro do coração, cantava no palco do circo todos os domingos, quando era criança, e sempre ganhava um torrone depois das performances.

Salete conta que a irmã usava um vestidinho xadrez, marrom e vermelho, e arrancava aplausos da plateia ao cantar a Canção dos Velhinhos. Rememora também o boneco que a irmã brincava na infância, o "Marcelão", que tem pelo menos 70 anos de história.

Daquinha casou-se com Roberto em uma cerimônia muito bonita na Igreja São José do Ipiranga. Juntos, tiveram dois filhos: Mirella e Maurício, e depois quatro netos queridos: Caio, Giovanna, Hiago e Nicoly.

Dadá morava com Caio, Mirella e Luis, seu genro querido, em uma casa repleta de animais de estimação, com gatos, papagaios, até uma tartaruga — incessantemente gostou da companhia deles e tinha uma cachorrinha muito especial, chamada Bel.

Foi uma mãe maravilhosa e atenciosa. Quando Maurício tinha dificuldades na escola, ela gravava fitas cassete com o conteúdo de algumas matérias para ele aprender mais rápido. Nos últimos tempos, por mais que a rotina do filho limitasse os encontros com ela, ele constantemente conseguia dar uma passada rápida em sua casa para visitá-la e para que visse seus netos. "Foi a melhor mãe e avó que eu e meus filhos podíamos ter, sentimos muito a sua falta. Daria todo o dinheiro do mundo para revê-la apenas por um segundo".

No dia a dia, apoiava sua filha em todas as situações. Era o porto seguro de Mirella, o alicerce que trazia alegria e estabilidade para a sua vida. Depois da perda do pai, era na mãe que a filha encontrava um abraço reconfortante. "A melhor pessoa que eu pude conhecer, me ajudou e apoiou em toda a trajetória de vida. Mamãe tem toda a minha admiração, meu respeito, meu amor e minha gratidão".

Gostava de passear no Museu do Ipiranga com a família e, nos últimos anos, Caio se tornou um neto amigo e companheiro, pois moravam juntos e dividiam todos os momentos. Passaram por todas as adversidades e a cada instante tiveram muito afeto um pelo outro. Fazia tudo por ele. " Vovó tinha a melhor comida do mundo, eu amava ficar o tempo todo com ela".

Era uma irmã muito parceira e amiga. "Não morávamos perto, entretanto ao menor sinal de necessidade uma corria ao encontro da outra", diz Salete. Toda semana, Guara recebia a irmã em sua casa com carinho e habitualmente servia algum docinho à mesa, pois gostava de prepará-los e os fazia muito bem.

Quando se tornou tia, recebeu o apelido de Dadá, que passou a ser usado carinhosamente pela família. Ajudou sua irmã quando os sobrinhos nasceram e os levava para dormir na casa dela, para curti-los bastante. Frequentemente foi uma tia brincalhona que adorava pregar peças no 1º de abril e gostava de cantar músicas do Roberto Carlos para eles, como - Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos. Depois de virar madrinha, quando também passou a ser chamada de Ma, preparava doces e pirulitos de chocolate afetuosos para as festas de aniversário de suas afilhadas.

Tinha prazer em presentear pessoas queridas e cotidianamente surpreendia os sobrinhos-netos com lembrancinhas diferentes. Além disso gostava muito de artesanato em madeira e de pintar estátuas. Uma habilidade que rendia decorações lindas e delicadas para sua casa se estendendo aos lares de sua irmã e de sua sobrinha.

Sua prima, Ioni, não tem dúvidas: "Ela foi minha professora da vida, confidente, amiga, irmã, esteve presente em todos os meus momentos". Lembra das ocasiões em que elas cantavam a música: Como É Grande O Meu Amor Por Você. A marca registrada dos encontros das duas era essa canção, para que nunca se esquecessem, nem um segundo, que elas tinham o maior amor do mundo.

Deixa muitas saudades para todos que a conheceram, um aperto no peito que nem o tempo é capaz de curar. Porém o amor e a lembrança de boas memórias ajudam a confortar os corações daqueles que permanecem neste plano.

Guaraciaba nasceu em São Paulo (SP) e faleceu em São Paulo (SP), aos 72 anos, vítima do novo coronavírus.

Tributo escrito a partir de testemunho concedido pela irmã, filha, filho e prima de Guaraciaba, Salete Aparecida Pereira Gama, Mirella Naranjo, Maurício Naranjo e Ioni Alonso. Este texto foi apurado e escrito por jornalista Gabriel Gama Teixeira, revisado por Magaly Alves da Silva Martins e moderado por Rayane Urani em 21 de março de 2022.