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Hugo Grazzini

1935 - 2020

Um doce de pessoa, são-paulino de coração e rei das macarronadas dominicais.

Sua paixão era a família. Casado com Dona Marly, foi pai biológico de sete filhos e uma de coração. Sua virtude maior era a bondade e, apesar de não ser um pai meloso, era muito afetuoso e acostumado a chamar os filhos e netos de “menininho” e “menininha”.

Sua esposa conta um fato interessante: “No dia do casamento, que estava marcado para uma sexta às 20h, lá pelas 16 ou 17h ele já estava pronto, mais ansioso que a noiva. Ficou tão nervoso, que teve até dor de barriga nesse dia”.

Era generoso e sempre ajudava a todos fazendo o que podia e o que não podia, também.

Era um doce de pessoa e adorava um docinho. Tanto que era costume encontrar vários deles escondidos em seu armário.

Gostava de cozinhar e, aos domingos, fazer uma macarronada era como uma lei a ser cumprida. Sem ele, as macarronadas de domingo nunca mais serão as mesmas.

Era aposentado e, sentado na sua poltrona, assistia aos seus programas favoritos e tirava seu cochilo. Nas horas livres, gostava de fazer sua palavra cruzada e jogar bingo. E, nesse jogo, tinha sorte.

Apreciava andar pelo centro da cidade e se reunir com outros aposentados na praça para bater papo. Passeava com o cachorro da família na rua e, costumeiramente, andava com uma vara com ímã na ponta, adivinhem para quê. Para pegar moedas caídas no chão e nos bueiros.

No seu afã de ajudar a família, tornou-se o seu office boy e, assim sendo, eram comuns os pedidos de: “Pai, vai no banco pra mim. Pai, vai na lotérica pra mim. Pai, vai no correio pra mim”. E ele ia com prazer.

Era são-paulino, louco pelo tricolor paulista. Tão louco pelo time do coração que foi sepultado com sua bandeira. Ouvia o jogo na rádio e via pela TV ao mesmo tempo. Se ficasse descontente com o desempenho dos jogadores, xingava e desligava ambos, para ligá-los cinco minutos depois e começar tudo de novo.

Descendente de italianos, tinha um vozeirão grave e falava alto. Quando bravo, usava essa língua para a família não entender o que ele falava.

Hugo não fez distinção entre os filhos biológicos e a filha adotada, Thaís. Em seu casamento, embora o seu “pai de sangue” tenha comparecido, foi com Hugo que ela subiu ao altar, onde deu um beijo em sua testa e disse: “Minha filha, seja feliz e faça sua família”.

No dia de sua formatura, fez questão de presenteá-la com um anel que, segundo ela, deve ter pago parcelado em muitas vezes. Não queria deixar passar em branco essa conquista que tanto incentivou, dizendo-lhe para estudar se quisesse, um dia, ser alguém na vida.

A gratidão de Thaís fica assim registrada nessa homenagem: “Ele deu a direção e me educou. Não me deu a vida, mas deu amor. E isso foi o bastante para eu ser eternamente grata a esse homem de coração enorme”.

Uma homenagem para a filha de Hugo, Rosana Grazzini, também está disponível neste memorial no link: https://inumeraveis.com.br/rosana-grazzini/

Hugo nasceu em São Paulo (SP) e faleceu em Mauá (SP), aos 85 anos, vítima do novo coronavírus.

Testemunho enviado pela filha do coração de Hugo, Thaís Issa. Este tributo foi apurado por Larissa Reis, editado por Vera Dias, revisado por Gabriela Carneiro e Lígia Franzin e moderado por Rayane Urani em 29 de novembro de 2020.