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Jacy Muniz de Souza

1940 - 2020

Adorava ver a neta dançando e a ensinou, entre outras coisas, a amar o próximo.

Nascida em 1940, em Vitória, Jacy era a quarta filha de Norberto e Flordalira. Aos 13, precisou parar os estudos e embarcou, junto à irmã, para o Rio de Janeiro.

Precisava ajudar nas despesas da casa. Começou a trabalhar de babá e empregada doméstica. Sofreu assédio de seus patrões, racismo e até que aos 37 anos, casou com o Seu Vieira. Cearense, pai de três filhos e viúvo há 10 meses. Ele disse que os filhos precisavam de uma mãe. E ela topou se casar para ajudá-lo.

"Criou a minha mãe que, na época, tinha 10 anos. Passou a ser chamada de mãe Jacy. Em 1998, quando nasci, de vovó Jacy. Ela era minha metade e me criou desde pequena", conta a neta Juliana.

E continua a neta: "Sempre disse o quanto a minha avó era o meu xodó. Levava-me para a natação, judô, aulas de música, enxugava meus choros, me dava colo, me mimava, me colocava para dormir. Minha avó era sinônimo de amor. De gratidão. Fazia o melhor brócolis refogado e o melhor doce de banana do mundo. Toda vez que ela voltava de São Gonçalo, eu chorava. Me sentia completa. Ela me rezava quando eu chegava pesada. Dizia que Deus estava sempre comigo."

Quando Juliana disse que ia se formar na faculdade, a moça doce chorou. Disse que ia ser a primeira neta que ela ia ver se formando. Mas infelizmente a avó não viu.

"Mais uma vida. A vida da mulher que mais amei nessa vida. A vida de uma mulher que nos ensinou a amar o próximo. Que amava me ver dançando", conclui Juliana.

Dona Jacy deixou três filhos, sete netos, uma cachorrinha e duas gatas. Ela era apaixonada pela família.

Jacy nasceu em Vitória (ES) e faleceu no Rio de Janeiro (RJ), aos 80 anos, vítima do novo coronavírus.

História revisada por Edson Pavoni, a partir do testemunho enviado por neta e jornalista Juliana Lois, em 7 de maio de 2020.