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José Domingos da Silva Júnior

1961 - 2020

Diante da alegria se fez maestro.

José era a personificação do samba: conduzia a vida numa levada cadenciada e trazia diversão a uma roda de amigos. Às coisas mais simples, que ninguém dava nada, ele impunha sempre um ritmo agradável e alegre. Foi um poema ambulante, que levando na bagagem suas piadas, frases formadas e trocadilhos inimagináveis, entoava hinos ao dizer qualquer coisa. Ah! Que bela música para os nossos ouvidos foi este paraense.

"Com o sol nascendo atrás de mim e a risada dele ecoando na minha cabeça, agora aos domingos só tocarão um samba", declara o filho Caio Luís ao lamentar o ritmo triste que o embalo da música da vida tomou nos últimos dias, que como num pré-refrão, anuncia a chegada da melhor parte; a imortalidade da mensagem linda que o autor escreveu na História. "Uma canção devagar e com apenas um violão tocando, mas parece uma orquestra. Cada corda batendo como se dissesse um breve “adeus”. A afinação perfeita, sem nota alguma fora do tom. Seguindo os batimentos de um coração deprimido, João Nogueira ergue com maestria a canção 'Espelho'. Começa a cantar na meia-noite e termina na meia-noite. A voz sem falhas. Quando volta o refrão, é como se eu ganhasse um abraço. Quando o refrão vai embora, é como se eu pedisse de novo."

O Júnior foi assim: um samba sem fim; um pedido de bis; um abraço no coração. Nada mais o define do que sua risada após uma graça. Tudo o resume a um coração enorme. O rastro de amor e amigos perdurarão eternamente. "E eu sei que lá no céu o velho tem vaidade e orgulho de seu filho ser igual ao seu pai" são as palavras de Caio.

José nasceu Belém (PA) e faleceu Belém (PA), aos 59 anos, vítima do novo coronavírus.

História revisada por Irion Martins, a partir do testemunho enviado por filho Caio Luís Barreto da Silva, em 13 de maio de 2020.