Sobre o Inumeráveis

José Edgar da Silva

1947 - 2020

Mais do que um consagrado artista da música junina, trazia a paz que é própria das pessoas de grande alma.

Com a morte de Edgar do Acordeon, a cena cultural sergipana do ciclo junino perdeu um grande artista. Perdeu fisicamente, mas vale dizer aqui, que suas músicas ficam como legado. Com uma trajetória de mais de cinquenta anos de forró, desde quando saiu de sua cidade natal, jamais se separou de sua sanfona como instrumento de trabalho para sustento da família.

Ainda cedo, mudou-se para Aracaju, onde viveu por mais de sessenta anos, tendo recebido o título de Cidadão Aracajuano em 2014. Começou sua carreira em 1964, tendo, em 1967, com o n° 384, sua inscrição efetivada na OMB, a Ordem dos Músicos do Brasil. Atuou por mais de dez anos como conselheiro da OMB (Seção Sergipe). Autodidata, aprendeu a tocar “de ouvido” diversos instrumentos como: triângulo, zabumba, pandeiro, cavaquinho e violão; mas sua grande paixão sempre foi o acordeon. Quando cantava, tinha a voz comparada à de Luiz Gonzaga, o Rei do Baião.

Sempre muito querido por onde passava, em sua caminhada conquistou pessoas e seguidores, ganhou muitos prêmios e fez muitos amigos. Na música sergipana, além de se apresentar com seu grupo musical, fazia parte da Orquestra Sanfônica de Aracaju, ao lado de tantos astros da sanfona do estado. Participou do “1° Festival de Sanfoneiros Pé-de-Serra”, em 2002, organizado pela Prefeitura Municipal de Aracaju. Neste festival, foi premiado 1° lugar com a letra “Um pouco de Aracaju”, de sua autoria.

Grande artista, ultrapassou as fronteiras do estado cantando pelo nordeste e animando festas nos sertões da Bahia, Alagoas e Pernambuco. Acompanhado pelo seu grande amigo, o professor José Paulino da Silva, percorreu muitas estradas pelo sertão da Bahia. Como também era um ótimo motorista, viajava a congressos e encontros ligados a Canudos, e assim pôde fazer diversos contatos para conseguir apresentações e demonstrar seu talento. Nas visitas a estas localidades, havia algo constante: por onde Edgar passava, ele agradava. Seja pelo talento, carisma ou repertório, sempre fazia um excelente show, o que levava o público a pedir aos patrocinadores seu retorno para o ano seguinte.

Além de tocar e cantar, Edgar do Acordeon teve importante participação no rádio e na TV. Nos anos de 1970 e 1971, fazia o programa “A Voz do Nordeste”, na PRJ6 Rádio Difusora de Sergipe AM. Na década de 80, gravou várias vezes com a apresentadora Clemilda, no programa “Forró no Asfalto”, na TV Aperipê. No período de 1994 a 2003, participou ao vivo do programa “Forrozão da Atalaia”, na Rádio Atalaia AM de Sergipe, muitas vezes tocando e outras tantas apresentando o programa, usando da experiência e aprendizado adquiridos com colegas apresentadores, aos quais tinha muita gratidão. Enquanto estava como apresentador, sempre abriu espaço para todos os forrozeiros que chegavam querendo divulgar o seu trabalho. Em 2009, passou a produzir e a apresentar um programa de forró ao vivo, na Rádio Aperipê AM 630.

Casou com Maria Risoleta Costa Silva. Foi pai de sete filhos: Selma, Edna, Rejane, Ivan, Elaine, Dayse e Aparecida; avô de cinco netos: Daniel, Jorge Vítor, Maísa, Emile e Mayara; e bisavô de Mayana e Laura. Edgar amava e se dedicava a sua família, de quem era um verdadeiro ídolo.

“Mais do que um consagrado artista do ciclo musical junino, Edgar trazia a paz que é própria das pessoas que possuem uma grande alma. Sua ausência física, causada pela morte, mesmo que tenha provocado uma profunda dor no coração de seus familiares e amigos, inaugurou uma nova presença espiritual e benfazeja na vida de todos os que o admiraram e o amaram”, disse o professor José Paulino, grande amigo das estradas.

José nasceu em Malhada dos Bois (SE) e faleceu em Aracaju (SE), aos 73 anos, vítima do novo coronavírus.

Tributo escrito a partir de testemunho concedido pelos amigos de José, Prof. José Paulino da Silva, Antonia Roza de Aguiar Menezes e José Teles de Menezes Sobrinho. Este texto foi apurado e escrito por Jornalista Vinícius Oliveira Rocha, revisado por Lígia Franzin e moderado por Rayane Urani em 19 de setembro de 2020.