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José Guilherme Henriques dos Santos

1960 - 2020

Médico, piadista, apaixonado por futebol e pela família. O melhor pai do mundo.

Filho de portugueses, aprendeu desde cedo que trabalho era um dos pilares da vida. E assim ele a levou. Médico cardiologista dedicado, sempre dava um jeito de encaixar pacientes sem cobrar nada, fazer consultas pelas calçadas e supermercados da vida. Bastava alguém enxergá-lo e pedir ajuda que ele prontamente atendia e já falava o que deveria ser feito. Não houve um pedido de socorro que não correu para atender! Nunca cobrou nada em troca, às vezes até o agradecimento excessivo o deixava desconfortável. Ele falava que tudo isso era o trato que havia feito com Deus ao tornar-se médico.

Brincalhão de primeira, a cada cinco frases, uma tinha que ser piada. Era essa a maneira como ele se apresentava ao mundo, assim era como conquistava o carinho por onde passava. Era um museu ambulante de tudo o que se podia imaginar! Ele conseguia conversar tanto sobre os desenhos animados que o faziam perder o ar de rir como sobre os assuntos mais sérios e profundos que alguém pudesse trazer. Mas a memória futebolística dele, ah, essa era invejável! Falava as datas, os placares, a escalação, tudo, principalmente dos times dele: Paysandu, Flamengo e Palmeiras.

Gostava de música e vez ou outra cantarolava alguma de sua autoria ao batuque de uma caixa de fósforos! Adorava dançar. Não era de sair para isso, mas se a ocasião permitia sempre pegava alguém pelo braço e saía dançando. A última vez que dançamos juntos foi no primeiro dia de 2020, na sala da casa dele, ao som de músicas do passado.

Sempre colocou a família em primeiro lugar, fosse a dele de sangue ou as agregadas que a vida foi lhe dando. Era o melhor pai que alguém poderia ter, inclusive para os enteados. Enquanto coubemos na mesma rede, lá estávamos nós, com ele enrolando os meus cabelos entre os dedos.

Pai, espero que esteja tudo bem. Torço para que tu tenhas encontrado o vovô, a vovó e o Renato. Obrigada por tudo, por ter feito parte da minha vida e me perdoa pelas cagadas. Tentei te passar o mesmo amor e carinho que me passavas, espero que tenha sido suficiente. Depois te pego!

Te amo.

José nasceu em Belém (PA) e faleceu em Belém (PA), aos 60 anos, vítima do novo coronavírus.

História revisada por Flávia Campos, a partir do testemunho enviado por filha Isabela Henriques, em 12 de maio de 2020.