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José Maria Santos Gonçalves

1949 - 2020

Apaixonado pelo Pará e torcedor entusiasmado do Paysandu

Santos, como gostava de ser chamado, era torcedor do Paysandu e apaixonado pelo Pará, seu estado natal. Tinha amor pela Ilha de Marajó.

Orgulhava-se de, graças ao trabalho como técnico em Geociências, ter visitado muitos estados do Brasil. Rodou por quase todos os municípios do Pará – incluindo aldeias indígenas e comunidades quilombolas. Era inclusive descendente de uma delas, a comunidade Caldeirão, em Salvaterra. Conhecedor da história de seu povo, quando a saúde ameaçava dar bobeira, bradava que “marajoara é forte”.

Sua casinha, herança de família preservada com carinho, era o refúgio de Santos. Quando não estava percorrendo os rios brasileiros a trabalho, descansava lá. Viajava de carro, barco, bimotor. “O Maranhão é aqui do lado”, costumava contar, fingindo desconhecer as dimensões territoriais generosas do Pará, quando alguém vinha falar sobre os limites.

Santos gostava de ir, mas tinha prazer mesmo em voltar. Queria comer maniçoba e sentir o suor na testa enquanto sorvia tacacá quente sob uma sensação térmica de 50ºC. Queria bater boca para defender o Paysandu na vizinhança ou entre os colegas de trabalho. Queria rir sacudindo os ombros, cena que por si só fazia todos rirem. Queria escutar carimbó e cantarolar tecnobrega.

“Aqui é marajoara, e marajoara não se cansa”, repetia, orgulhoso. Em fevereiro, comprou um carro zero. Foi uma de suas últimas grandes emoções. O veículo trouxe mais diversão às idas ao trabalho e às viagens à Ilha de Marajó. Envolvido pelo Pará, Santos não via o tempo passar naquele carro.

Despediu-se do amado Paysandu em uma partida contra o arqui-inimigo Remo, em agosto de 2019. A disputa terminou em um empate insosso, 1 a 1. Mas Santos ainda testemunhará muitos triunfo: sócio remido do clube, ganhou uma caricatura pintada no muro do Estádio Curuzu.

José nasceu em Salvaterra (PA) e faleceu em Belém (PA), aos 70 anos, vítima do novo coronavírus.

Tributo escrito a partir de testemunho concedido filha de José, Deise Moreira Gonçalves. Este texto foi apurado e escrito por Jornalista Juliana Parente, revisado por Daniel Schulze e moderado por Rayane Urani em 29 de agosto de 2020.