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Joselita Barbosa Morais

1950 - 2020

Buscava desfrutar das alegrias do caminho e deixa eternizada a sua determinação.

Conhecida por mais dois nomes – Zelita e Angelita –, foi "uma mulher muito forte”, como a define sua filha Fernanda Teresa, que conta: "Logo quando nasceu, sua mãe se suicidou devido à ausência do seu pai, que não a assumiu. Após um ano, a avó biológica a doou para um casal do interior: minha vó Tereza e meu vô Vital. Lá passou a ser chamada, também, de Zelita. Aos 10 anos, começou a trabalhar em casas de família, onde ficou conhecida como Angelita e, segundo ela, sofreu até agressões físicas. Mas, com o seu coração enorme, fazia sempre bem o seu serviço e, mesmo depois de sair das três casas em que trabalhou, as visitava e sempre se colocava à disposição”.

Apesar dos sofrimentos, vivia inteiramente os momentos felizes, sem lembrar das infelicidades ou demonstrar tristeza. "Minha mãe tinha muito amor e poucas lágrimas... Eu a vi chorar apenas uma vez", descreve Fernanda Teresa. "A doação ao outro era o que ela tinha de mais especial. Ela era querida por todos. Eu não conheço uma pessoa sequer que não gostasse dela. De tão voltada ao próximo, até esquecia de si."

Quando começou a participar do Caminho Neocatecumenal, comunidade da Igreja Católica, a vida de Joselita recomeçou. "Ela conseguiu perdoar a sua mãe pelo suicídio e compreender os acontecimentos vivenciados no trabalho, no início da vida. Entendeu que, nas casas em que trabalhou, pôde estudar e tornar-se professora, alcançando o meio de sustento necessário para a nossa família”, diz a filha.

Foi também nessa comunidade religiosa que Joselita lutou, ao lado do esposo, pelo divórcio do primeiro casamento dele. “Meu pai se casou aos 17 anos e não sabia se já era viúvo, o que o impedia de casar-se novamente na igreja. Com essa situação, a minha mãe parou de comungar – o que ela tanto queria, sabendo da importância desse sacramento. Em novembro de 2019, após oito anos tentando, o meu pai estava finalmente divorciado”, conta Fernanda Teresa.

A partir de então, Joselita não falava em outra coisa a não ser em casar-se. “Ela colocou na cabeça que iria se casar logo e o meu pai queria que isso ocorresse apenas no final de 2020. Mas ela insistia e só falava nisso. Organizou tudo para se casar na igreja, o que aconteceu, com a graça de Deus, em 14 de fevereiro de 2020”, diz a filha.

O pai das suas filhas foi o único homem com quem Joselita se relacionou. Ela o conheceu aos 30 anos e, três anos depois, gerou Fernanda Teresa. Contudo, ao mesmo tempo, seu esposo ganhou uma outra filha, fruto de uma relação extraconjugal. A diferença entre as gestações foi de apenas quatro meses. Quando a segunda filha do seu esposo não pôde mais ser mantida pela mãe, Joselita assumiu a responsabilidade de criá-la juntamente com ele.

“Ela não fazia distinção entre minha irmã e eu. Na verdade, sempre dizia que não queria me deixar só, sem irmãos, pois isso era muito ruim. Lembro que eu estava com 17 anos quando meus pais adotaram meu primo, que na época tinha 3 anos. Assim se formou nossa família. Ela foi uma grande mãe, que sempre trabalhou muito, mas nunca deixou de cuidar de nós com amor e também mãos de ferro, exigindo estudo e disciplina”, descreve Fernanda Teresa.

Cozinheira de mão cheia, ela fazia pizza no aniversário de cada membro da família. Aos 66 anos, tirou a sonhada CNH, o que tentou por dois anos, após ser contemplada com um consórcio. “Ela disse que compraria o carro se conseguisse a carteira de motorista. E conseguiu”, diz a filha. “Depois que se aposentou, ela criou o hábito de dormir à tarde, o que fazia com que não gostasse de sair nesse período. Mas pela manhã, todos os dias, estava disposta. Mais disposição ainda tinha para o que amava: criar galinhas, cachorros, gatos e papagaios.”

Decerto, para Joselita, “tudo era com e por amor”: ao esposo, aos três filhos e aos cinco netos – estando um deles, em sua partida, ainda no ventre da sua filha Fernanda Teresa, que encerra sua homenagem dizendo: “A vida da minha mãe foi marcada pela palavra ‘determinação’. E é essa a herança que ela deixa para mim”.

Joselita nasceu em Caxias (MA) e faleceu em Teresina (PI), aos 70 anos, vítima do novo coronavírus.

Testemunho enviado pela filha de Joselita, Fernanda Teresa Barbosa Santos. Este tributo foi apurado por Lígia Franzin, editado por Luciana Fonseca, revisado por Paola Mariz e moderado por Rayane Urani em 28 de julho de 2020.