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Lídio José da Silva

1940 - 2020

Um brasileiro legítimo, que vivia alegre, sorrindo, fazendo sorrir e contando piadas sem graça.

Era filho caçula de Marcolino José, um homem negro, nascido no ano da abolição da escravatura e de Belarmina Jones, que terminou adotando como nome de casada Belarmina Josina. Pois José, era sobrenome do pai de Lídio e, segundo ele, a esposa deveria se apropriar de uma versão “mais feminina” desse nome. Então inventaram o “Josina”.

Seus pais tiveram cerca de quinze filhos, não se sabe ao certo a quantidade correta, mas não era menos que isso. Chegaram ainda muito jovens na Bahia e se estabeleceram em terras devolutas, onde criavam animais e plantavam para a própria subsistência. Neste mesmo local nasceu, “Lídio”, “Paínho” ou “Jacaré”, como era chamado, o último certamente era mais uma galhofa.

Nascido em um município pobre da Bahia, falava com orgulho da cidade, dizia que era “terra de macho” e ao mesmo tempo ria disso quando contava da ocasião em que foi desmentido em pleno Cassino do Chacrinha, quando um conterrâneo apresentou-se lá, como calouro; vestido de um jeito espalhafatoso e falando mole. Chacrinha teria perguntado a ele de onde ele era e o calouro prontamente respondeu que era de Macarani, Bahia. O que resultou em Lídio virar alvo de piada entre os colegas do trabalho.

Apesar da educação rigorosa em casa, como bom filho caçula, ele teve lá os seus mimos. Era bem paparicado por Dona Bela e mamou no peito até os cinco anos de idade. Isso mesmo, cinco anos. Quando cresceu mais um pouco foi estudar em regime de internato em uma excelente escola da região. Mas terminou saindo, sob recomendação (ou ordem, não sabemos) do próprio pai, para trabalhar.

E assim, trabalhando como bancário, ele conquistou sua independência, entre as décadas de 50 e 60, enquanto o mundo vivia a explosão do rock’n roll e o fim da Era de Ouro do cinema norte-americano. Aliás, Lídio tinha toda a pinta de um James Dean preto do interior baiano, meio rebelde sem causa, “cheio de chinfra”, como diziam. Quem teve a oportunidade de escutá-lo tentando falar inglês sabe que seu sotaque era simplesmente espetacular. E que seu vocabulário tinha muito dos filmes de “cawboi”. Ele adorava as produções de faroeste e, mais tarde, passou a adorar as de super-heróis também. Chegou até a fazer um bico criando cartazes de cinema para os raros lançamentos que chegavam à cidade, pois tinha uma mão muito boa para o desenho e uma caligrafia “porreta”.

Cheio daquele charme malandro e bom humor, aos 21 anos, roubou o coração de Nilda, uma moça branca, filha de família rica. Timóteo, avô de Nilda era muito conhecido, pois havia ajudado a levar desenvolvimento econômico para a região. Mas Olívio, pai de Nilda, acabou perdendo a herança em negócios malsucedidos. Lídio precisou então peitar a família da jovem e o seu próprio pai, Marcolino. Aos 22 anos se casaram e foram morar em Salvador, onde tiveram seus três filhos.

Não é à toa que a risada e a alegria eram sua marca. Assim como suas piadas engraçadas de tão sem graça. Suas frases feitas cheias de deboche: “O tempo é inexorável”, essa virou até tatuagem feita pela neta; “Você tá querendo a saia, a anágua e a bunda pra tremer debaixo”, algo como “a gente dá a mão e você quer o braço”; “Ai se Dona Bela não tivesse tido eu”; “Ai que fome, meu Deus, acho que vou falecer”; “Vamos comer gente” sem vírgula mesmo. Com esse mesmo tom de brincadeira, interagia inclusive com pessoas desconhecidas na rua.

“Por causa disso, eu tive o prazer de viver inúmeras saias-justas ao seu lado. Sempre rindo muito de tudo.” Relata seu filho, Ricardo, que acrescenta: “Sou o caçula, assim como ele. Fui o que se costuma chamar de temporão ou raspa de tacho, pois nasci dez anos depois do meu segundo irmão. Isso me rendeu algumas mordomias, é claro, mas ao mesmo tempo uma sensação de filho relegado. O que, em parte, fez com que eu demorasse um pouco a entender e a admirar, de verdade, o meu amado painho. Hoje tenho um orgulho enorme de tudo o que ele representa, com os erros e acertos. Sei que tenho até o seu jeito torto de andar em casa, quando tomava uma cachacinha. Muitas vezes, me sinto quase que incorporado pelo meu pai. E tenho muito mais dele em mim do que a maior parte das pessoas próximas pode imaginar. O gosto pela arte, pelas ciências humanas, o interesse nas pessoas, a espontaneidade, a simplicidade. Além de uma coisa que, para mim, é um de seus maiores legados: A leveza no modo de viver. Meu pai tinha suas chatices e preocupações, como todo mundo, mas no fundo sabia que a gente não pode se levar muito a sério. Que é preciso rir de si mesmo. É com essa alegria que eu vou guardar você pra sempre! Desse jeito, você estará presente ao meu lado, me fazendo viver mais leve e melhor! Obrigado por tudo! Te amo!”.

Agora todas essas risadas viraram saudade. Uma saudade viva, que continua inspirando a todos, sua esposa, seus filhos, noras, netos, sobrinhos, irmãos, cunhados e amigos. Sem exceções, todos tem uma visão unânime: Lídio era muito alegre! Deixa alegria, deixa saudade, deixa um exemplo de vida e muito amor.

Lídio nasceu em Macarani (BA) e faleceu no Rio de Janeiro (RJ), aos 79 anos, vítima do novo coronavírus.

Testemunho enviado pelo filho de Lídio. Este tributo foi apurado por Acsa Tayane, editado por Bianca Ramos, revisado por Lígia Franzin e moderado por Rayane Urani em 13 de junho de 2020.