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Linaldo Malaquias dos Anjos

1966 - 2020

A magia da leitura subtraía seus cansaços e tornava concretas as viagens mais fantásticas.

Leitor assíduo, que mesmo não dispondo de dinheiro de sobra, nunca lhe faltou um bom livro para ler, com universos a serem descobertos, maravilhosas aventuras, excelentes conversas com pessoas longínquas e desconhecidas num diálogo incessante: os personagens falavam por meio do livro e ele respondia por meio da alma.

Íntegro, tal qual seus pais, sempre fazia a coisa certa, mesmo que não tivesse ninguém olhando. Possuidor de uma empatia fantástica, sempre buscou enxergar a alma do outro sem julgar o que via, respeitando sempre o tempo e o espaço de cada um.

Era ousado e firme aos seus propósitos. Para ele, se conhecia alguém que não era uma pessoa boa, divertida, presente e construtiva, não tinha o porquê de se aproximar e quanto mais distante, melhor.

Pensava acima dos valores efêmeros. Avaliava com cautela seus desejos, para não exceder aos seus princípios ou trazer para si o que fosse de outrem.

Um lutador que desconhecia sua própria força, um guerreiro que iniciava uma nova batalha quando era necessário. Mas, em certos momentos, silenciava, pois nunca tentou lutar com quem não merecesse a honra do combate.

Para ele não havia satisfação maior do que aquela que sentia quando proporciona alegria aos outros. Era imensurável a sua felicidade ao ver seus irmãos chegando a sua casa. E repetia para cada um que chegava: "Estou feliz com a sua presença aqui em casa".

Divertido, porém diferente. O simples fato dele existir já o tornava diferente. Chamava a atenção das pessoas não por ser rico, por ser mega responsável ou por ser dedicado aos estudos, mas pelo carinho que dedicava a cada um que o cercava.

Sentia prazer e diversão ao se revezar entre o calor da churrasqueira e o gelo do isopor. O que importava era que sua família estivesse em sua casa para compartilhar com ele momentos de sua vida, seja para comemorar aniversários ou para assistir a uma boa partida de futebol.

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Honesto, chorava facilmente com a dor do outro e nunca feriu ninguém. Mesmo quando foi magoado, soube perdoar.

Linaldo Malaquias teve 11 irmãos e pais amorosos. Durante a infância fabricava seus próprios brinquedos ou observava atentamente os que seu pai construía, demonstrando desde cedo sua criatividade, principalmente quando se tratava de brincar.

Trabalhava em um horário e estudava em outro. Sempre muito inteligente, mas inquieto, parecia adquirir os conhecimentos muito mais pela observação do que pelo ensino rebuscado dos professores. A seu modo, observava o mundo respeitando a complexidade e ambiguidade dos fatos.

Seu amor e curiosidade pelo mundo do campo o fizeram cursar a licenciatura em Ciências da Natureza. Após o diploma, continuou trabalhando no campo, lugar que tanto amava, sempre curioso sobre o funcionamento da vida na roça e tudo que ela envolvia.

Em vida, amou a esposa, Cleide, e após o casamento abria sua casa para a alegria. Qualquer coisa era motivo para juntar a família, festejar. E beijava, abraçava cada um que chegasse, sorria e era feliz, imensamente feliz.

Espirituoso, comunicativo e brincalhão, Linaldo era fácil de fazer amizade, sempre agiu com dignidade e demonstrava seu caráter, principalmente, através de atitudes mais simples.

Nunca lhe faltava um bom livro para ler e, com ele, universos a serem descobertos, maravilhosas aventuras, excelentes conversações num diálogo incessante, como se a obra falasse e sua alma respondesse.

Sua receita do bolo de leite caiu no gosto de todos do Mercado Municipal de Arapiraca, onde trabalhava em sociedade com um dos irmãos, e acabou se tornando o queridinho dos amigos e clientes — todos eles o adoravam, assim como sua família.

Distribuir abraços era com ele, parecia querer proteger todos e sentia como se fossem suas, as dores do outro: sua família o chamava de “abraçador”.

Linaldo nasceu em Alagoas e faleceu em Arapiraca (AL), aos 52 anos, vítima do novo coronavírus.

Testemunho enviado pela irmã de Linaldo, Maria Margarete Malaquias Cavalcante. Este tributo foi apurado por Malu Marinho, editado por Andressa Cunha e Nathaly Correia, respectivamente, revisado por Lígia Franzin e moderado por Rayane Urani em 9 de agosto de 2020.