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Marcelo Costa Mathias

1960 - 2020

Conquistou amigos, que se transformaram em sua família, graças à sua autenticidade e personalidade travessa.

Epitáfio: Teve uma história rica, cheia de conhecimento, alegria e amigos, que ele fazia questão de conservar.

Marcelo foi fiel à própria essência. Era intenso, alegre e do tipo que perdia o amigo, mas não perdia a piada. Um típico aquariano, com personalidade forte. E, quando conquistava alguém, era para valer. A sinceridade somava-se ao bom-humor e reflexões profundas sobre a vida, o que fazia dele uma excelente companhia.

A ex-cunhada, Claudete Brito, faz parte do time que foi conquistado por Marcelo. Não apenas ela, mas toda família Brito. Mesmo separado da irmã, Claudiene, o vínculo com Bernadete (a ex-sogra que ele chamava de dona Berna), seu Antonio (ex-sogro), José Marcelo (ex-concunhado) e com a ex-mulher permaneceu forte por toda a vida dele.

Foi a continuidade dos laços com a família de Claudiene que ajudou a salvar a vida de Marcelo em dezembro de 2017. Dona Berna o encontrou caído quando foi visitá-lo. Ele estava sofrendo um Acidente Vascular Cerebral (AVC) naquele exato momento. A partir daí, a família da ex-esposa foi essencial em sua recuperação, junto ao comprometimento dele.

O ano de 2018 foi marcado por um período de intensa reabilitação. Dedicado ao tratamento com fonoaudióloga, fisioterapeuta, psicóloga e acompanhamento médico neurológico. Um ano depois do ocorrido, já estava bem melhor.
Isso permitiu que em 2019 ele passeasse bastante.

Suas primas Ana Paula e Inajara, que residem em Porto Alegre, cidade natal do Marcelo, mesmo à distância, fizeram questão de participar do processo de reabilitação dele após o AVC. Estavam sempre presentes pelo WhatsApp e chamadas de vídeo.

Com a evolução do estado de saúde, Claudete e a família deram espaço a ele. Afinal, Marcelo sempre foi o protagonista de sua existência. "Mantivemos os cuidados e toda atenção, mas devolvemos algo que para ele era fundamental: a independência e a privacidade", conta.

A vida de Marcelo seguiu marcada por muitas outras histórias incríveis. Ele conheceu o mundo trabalhando como comissário de bordo na Varig. Encantou-se especialmente com Nova Iorque, Paris, Barcelona, Londres e Porto. Trabalhou por 25 anos na companhia aérea. Depois, atuou como psicólogo. Nessa profissão realizou atendimentos até ter o AVC. A psicologia foi uma de suas áreas preferidas, assim como o trabalho de comissário. Era um grande admirador de Freud e Jung.

No currículo, ainda constava a faculdade de Enfermagem; essa formação agregou à vida de Marcelo a possibilidade de dar aulas de primeiros socorros e sobrevivência na selva. Também foi professor no curso de comissário de bordo. No tempo livre, ainda reformava móveis. Era tão múltiplo quanto intenso, dessas pessoas que fazem questão de relacionamentos francos e que apreciam os prazeres da vida.

"O Marcelo sempre foi um 'bom vivant'. Andava impecável, bonito, charmoso e perfumado. Galanteador, tinha gosto refinado para tudo. Sua biblioteca impressionava pela quantidade e qualidade das obras. Acumulava roupas e sapatos, possuía uma tendência a 'colecionar' esses itens", conta Claudete.

Teve seis filhos, fruto dos dois primeiros casamentos e do relacionamento com uma namorada. Uma vez, aprontou uma brincadeira para "trolar" um dos filhos. O menino foi visitá-lo e garantiu ser muito esperto. Segundo ele, ninguém o enganava. Quando o garoto foi tomar banho, Marcelo aproveitou para provar que não era bem assim. Adicionou óleo ao condicionador. "E aí, filho, o que achou do condicionador?" - indagou Marcelo. "Adorei, pai, muito bom".

Marcelo caiu na gargalhada e zombou bastante do garoto. Ele amava contar essa história. A exemplo do que fez com o filho, curtia provocar e zombar de tudo e todos, até dele próprio - sempre de maneira sadia e amorosa. Amava falar sobre as peraltices de garoto, das confusões de namoro e das situações mais triviais. De qualquer assunto ele conseguia extrair uma piada. No meio das conversas, soltava sonoras risadas. Teve amigos leais, os quais amavam seu jeito franco, engraçado e versado em assuntos diversos.

Segundo Claudete e Claudiene, Marcelo também gostava de ter conversas profundas. Versado em muitos assuntos, graças à bagagem de experiências adquiridas nas viagens; leituras; vivências em tantas profissões e atividades, os papos com ele fluíam e eram muito ricos. Gostava de discutir ideias e de relembrar a própria história.

Marcelo provou, enquanto esteve por aqui, que as separações não significam o fim do amor, apenas a transformação dos laços. Ele segue no coração da família Brito e dos amigos que o amaram exatamente como ele era.

Marcelo nasceu em Porto Alegre (RS) e faleceu em São Paulo (SP), aos 60 anos, vítima do novo coronavírus.

Testemunho enviado pela amiga e ex-cunhada de Marcelo, Claudete Brito. Este tributo foi apurado por Lígia Franzin e Talita Camargos, editado por Talita Camargos, revisado por Ana Macarini e Bettina Florenzano e moderado por Rayane Urani em 20 de agosto de 2021.