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Márcia Nazaré Lima Câmara

1966 - 2020

Nunca perdeu um Círio de Nazaré. E sempre, ao se despedir do afilhado, mandava "um cheiro".

Márcia era funcionaria pública e trabalhava como servente em uma escola. A vida toda trabalhou em escola. Não era nem muito baixa, nem muito alta. O cabelo crespo, já com alguns fios brancos que ela escondia, com os cabelos bem presos, pois na infância tinha sofrido muito preconceito e, infelizmente, não sentia-se à vontade com ele solto.

A sobrinha Alessandra conta que, em 2021, a tia iria finalmente se aposentar. Estava contando os dias. "Não vejo a hora de fazer um quartinho lá em Santa Bárbara e descansar", repetia sempre, sobre o terreno que comprara, no pequeno município, próximo a Belém.

Ela era discreta e não gostava de muita exposição. Tinha uma certa dificuldade em socializar, pois não gostava de muito barulho, nem de sair de casa, nem da casa cheia demais. Só a família bastava.

Católica, era muito devota de Nossa Senhora de Nazaré, a padroeira de Belém. "Era calma e paciente, mas quando se estressava, sai de baixo", conta Alessandra, e diz que a tia era uma pessoa muito sorridente, cuidadora, do tipo que se doava e zelava pelos seus sem poupar sacrifícios.

Acompanhou a convalescença do marido com câncer bravamente e, no processo, superou muitos de seus próprios medos (não gostava de andar sozinha, nem de elevador, nem de hospital). "Ela se transformou, evoluiu, se encontrou. Cuidar dele foi a cura dela", diz Alessandra. Márcia ficou viúva há apenas oito meses e deixa um filho de 29 anos, André Raphael Fernandes Câmara dos Santos. Deixa, também, saudade e lembranças.

"Meu último momento com ela, do qual nunca me esquecerei, foi uma noite aqui em casa. Ela estava deitada na rede, prestes a dormir e eu ofereci um chá. Tomamos o chá juntas, conversamos, rimos, e ficamos observando o meu filho Heitor (afilhado dela), de dois anos, que brincava perto da gente e depois, fomos dormir", conta a sobrinha.

Márcia nasceu em Belém (PA) e faleceu em Belém (PA), aos 53 anos, vítima do novo coronavírus.

História revisada por Phydia de Athayde, a partir do testemunho enviado por sobrinha Alessandra Lima Câmara, em 11 de maio de 2020.