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Marcondes Portela dos Santos

1976 - 2021

Sonhador e realizador, sua arte chegou a vários lugares do mundo.

Marcondes tinha pressa. Intenso, foi homem das surpresas e inovações. Aos seis anos, já fazia composições musicais. Todos tinham que cantar. Cantou funk, fez fama, apareceu na TV, tocava nos rádios. Uma hora, largou o funk, para poder estudar.

Filho de dona Dinah merendeira e de seu Ivo servente, ambos funcionários públicos, uma família grande, unida, onde a educação sempre foi colocada para Marcondes, e seus irmãos, Márcio, Marcelo e Monique Portela, como prioridade por seus pais.

Aos domingos, seu pai também trabalhava como ambulante e levava todos os filhos ao Maracanã, para assistir aos jogos. Nasceu assim o amor pelo esporte e pelo Botafogo. “...nasce assim um botafoguense ...” conta sorrindo, sua irmã Monique.

Menino preto, pobre, criado em São João de Meriti, na baixada fluminense, nascido em Pilares Marcondes, conhecido como Rocco, mas que em casa atendia por Teté, gostava de colocar apelido em todo mundo, era muito implicante e brincalhão. Quando criança desenhava perfeitamente e escrevia letras de músicas, em um caderno e dizia que iria gravar um disco com seus escritos.

Aprendeu a desenhar de forma autodidata e se aperfeiçoou com cursos. Começou a pintar seus desenhos com os dedos, não sabia usar os pincéis. Ganhou bolsa na escolas de artes, estudou no Museu de Arte Moderna de SP, no Rio de Janeiro estudou no ateliê Carlos Magno no Parque lage, passou a usar os pincéis com eles, homenageou artistas e pessoas da comunidade negra importantes da história do Brasil.

Frequentou o Pré-vestibular para Negros e Carentes (PVNC). Foi o primeiro de sua família, negra e periférica, a entrar em uma Universidade Pública. Formou-se professor de Educação Física, com orgulho.

Na universidade passou a se dedicar a seus estudos de educação física, levou a capoeira para dentro da universidade, dando aulas, como uma forma de se manter, já que morava no alojamento da instituição. Depois de formado voltou à escola onde estudou quando criança como professor de educação física e cidadania para seus alunos.

Rocco já era abraçado pela arte na adolescência, quando começou a cantar funk ao lado de seu primo, formando a dupla MC Ricardo e MC Marcondes com o rap, Quebra corrente, que fez sucesso. Tocavam nas rádios, se apresentavam em programas de TV e bailes funks ao lado de nomes como, Claudinho e Buchecha, no entanto, logo Rocco passou no vestibular da Universidade Rural em Seropédica para o curso de educação física e a vida foi traçando outros caminhos.

Fundou o grupo, Capoeira do coração e lá se tornou mestre de capoeira e com sua influência como professor, integrava grandes mestres de capoeira locais, a participar de eventos, dar aulas de capoeira, palestras gerando renda e transmitindo conhecimento dentro das escolas particulares que ele dava aula de educação física, em uma perspectiva de resgate da cultura e do cuidado com os mestres. É o maior grupo de capoeira em São João com mais de 500 membros.

Dizia-se um "machista em desconstrução" e um militante da luta antirracista. "Foi um sonhador, idealizador e realizador. Sua arte, na forma de quadros, chegou a vários lugares do mundo", conta a irmã Monique.

Em 2014 voltou a desenhar passou a se especializar e se dedicar também a pintura, foi reconhecido por seus trabalhos na TV, como o menino que pintava com os dedos, recebeu prêmios, bolsa de estudo no MAM em SP, deu aulas de pintura no centro cultural de São João de Meriti e também montou em sua casa um ateliê, chamado Fábrica de sonhos MRocco, onde dava aulas de pintura, técnica de desenho, pré vestibular social, pré Enem, montava equipes com vizinhos e amigos de infância para recolhimento de doações, alimentos para distribuição de cestas e quentinhas na comunidade onde cresceu inclusive, durante a pandemia.

Através da sua arte pode viajar, conhecer outros países, morar em outros lugares no mundo, pintando, jogando capoeira, mas também sabia da importância dele para família, para sua comunidade e o quanto a família era a base para ele... Rocco escolheu voltar para morar próximo aos pais, principalmente perto da mãe, a qual era muito agarrado, Natal e aniversário tinha que ser com ela sempre.

Marcondes amava a família. Tentava ajudar a todos, mas no tempo dele, imprevisto e certeiro. Era a presença querida que todos queriam por perto. Unia os separáveis, fazia piada e graça com tudo e todos.

Rocco teve muitos amores ao longo de sua vida, que foram de fundamental importância em cada fase de sua trajetória, desses amores nasceram seus filhos amados, seu motivo de orgulho, Miller seu mais velho, desenhista e estudante de Biologia e Gabriela Iolanda, a “...menina propaganda do pai...”, assim ele a chamava e que carrega o nome de sua bisavó, também pintora e artista plástica.

Nos últimos anos pode usar sua arte como forma de integração com outras manifestações culturais, sempre aproximando suas pinturas de outros movimentos artísticos. Pintou diversas personalidades, promovendo esse encontro com a música, com a escrita, com o esporte. Gostava de falar através de suas obras e, chamava atenção para questões sociais pintando também seu cotidiano, usando a sua tinta e o quadro negro também como protesto e principalmente denunciando o racismo cotidiano. Mas sobretudo, deixando uma mensagem de fé e resiliência, acreditando na arte como caminho para se viver, ele dizia que “...toda arte tem um dono eu só promovo esse encontro ...” nos conta Monique sua irmã, Monique Portela.

Como deixa saudades! "Vi o camelô chorar quando soube, vi seus alunos da escola chorarem, o guardador de carros, os vizinhos, os artistas ligados a ele, ficaram perplexos. O apresentador Alex Escobar lembrou e a escritora Conceição Evaristo ligou. Fica em todos nós um pouco do Marcondes Rocco, Mestre Rocco, Professor Rocco", diz a irmã.

Marcondes nasceu em Rio de Janeiro (RJ) e faleceu em Duque de Caxias (RJ), aos 44 anos, vítima do novo coronavírus.

Testemunho enviado pela irmã de Marcondes, Monique Jayme Portela dos Santos. Este tributo foi apurado por Rayane urani, editado por Ticiana Werneck e Fabíola Machado, revisado por Luana Bernardes Maciel e moderado por Rayane Urani em 4 de julho de 2021.