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Maria José dos Santos

1946 - 2020

Cheia de habilidades, deixou na vida de cada conhecido uma peça de crochê.

Parece até que Milton Nascimento se inspirou em Maria José quando escreveu a letra da música "Maria, Maria".

“Maria, Maria, é um dom, uma certa magia, uma força que nos alerta”. E a nossa Maria alertava e se preocupava com todos ao seu redor com sua visão de águia. Observadora, inteligente e experiente, sempre dava conselhos e, com suas mãos de fada, possuía o dom mágico do cuidar. Amava demais os netos e fazia por eles tudo o que fosse preciso, como se fossem seus filhos.

“Maria, Maria, é uma mulher que merece viver e amar, como outra qualquer do planeta.” E ela se amava, era dona de si, personalidade única e forte. Vaidosa, usava os cabelos sempre bem lavados, secos e penteados,e unhas feitas à francesinha nos pés; ela sabia impor seus gostos e preferências. Sempre teve opinião própria. Amou muito os que estavam ao seu redor, e foi muito amada também, ela merecia todo amor do mundo.

“Maria, Maria, é o som, é a cor, é o suor, é a dose mais forte e lenta, de uma gente que ri quando deve chorar, e não vive, apenas aguenta.” E ela aguentou muito apesar de sua fragilidade. Força, tinha de sobra, porque seguiu sempre em frente, com um sorriso no rosto e a mão estendida para todos que precisassem. Como mãe solo, foi às custas de muito empenho que criou os dois filhos, e para eles foi sempre o único ponto de referência e porto seguro.

“Maria, Maria, mas é preciso ter força, é preciso ter raça, é preciso ter gana sempre.” E como ela tinha raça realizando tantas funções! Foi faxineira, cuidadora, cozinheira, passadeira, costureira e artesã, além de dona de casa. Nunca dependeu de ninguém, sempre ganhou seu próprio dinheiro e com ele ajudava a todos que precisassem. Gostava de ser independente, era organizada, tinha gana, tinha planos para uma vida boa e tranquila para todos à sua volta.

“Maria, Maria, é preciso ter manha, é preciso ter graça, é preciso ter sonho sempre.” E como ela sonhava! Sonhou tanto com a casa própria, que a construiu do seu jeito, com um jardim imenso na frente. Amava suas plantas, das quais sempre cuidou com muito amor e carinho; achava graça e sentia alegria e orgulho quando os outros também as apreciavam. Dominava também a arte de fazer crochê, e era capaz de tecer qualquer peça que lhe fosse sugerida. O resultado de tanta habilidade é que todos da família e todos os lugares por onde morou terão, por décadas, um “pedacinho” de Maria José como recordação.

“Maria, Maria, que trazia no corpo a marca, mistura de dor e alegria, e essa estranha mania de ter fé na vida.” Maria viveu alegrias, e também carregou no corpo as dores e marcas da luta contra o câncer. Agora, foi para o descanso merecido, em outro plano, depois de uma vida plena de realizações e composta de tantos capítulos.

Com certeza sentiu o pensamento, a emoção, a presença e a energia daqueles que a amavam e que não puderam estar fisicamente presentes em seu momento final. De alguma forma, estavam todos lá - junto a seus filhos.

Maria José nunca será esquecida. Ela estará sempre viva por meio das lembranças materiais e imateriais que deixou e, principalmente, nos ensinamentos que passou para os familiares, filhos e netos e que continuarão se perpetuando e se multiplicando por toda a eternidade.

Que ela descanse em paz, colhendo os benefícios da gratidão emanada por aqueles que com ela conviveram, e que dela sentirão saudade eterna.

Maria nasceu em Jacarezinho (PR) e faleceu em Sertãozinho (SP), aos 73 anos, vítima do novo coronavírus.

Testemunho enviado pela neta de Maria, Camila Araujo Santos Santana. Este tributo foi apurado por Larissa Reis, editado por Vera Dias, revisado por Maria Eugênia Laurito Summa e moderado por Ana Macarini em 11 de agosto de 2021.