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Marly Gomes da Silva

1970 - 2020

Ela foi uma mulher no sentido mais pleno: do seu interior, criava vida.

"Qualquer um pode amar uma rosa, mas é preciso um grande coração para incluir os espinhos." (Clarice Lispector)

O coração de Marly era assim: grande não apenas para "incluir", mas suficientemente grande para transformar em cuidado, acolhimento e amor os espinhos que durante toda a vida lhe causaram dor.

Foi uma trajetória de luta. Trabalhou como diarista, funcionária do lar, sofreu abusos quando criança, deu o suporte necessário para que um dos filhos ─ que havia encontrado no crack motivos para dilapidar os bens materiais e os vínculos familiares ─ se livrasse do vício. Acreditando sempre no filho, cuidou, amparou e assumiu a criação dos netos até que ele largasse o crack.

Ao todo Marly teve três filhos e quatro netos, mas era como se tivesse gerado muitos mais, pois cuidava dos filhos dos vizinhos, conhecidos e amigos. Amamentava, banhava, colocava para dormir... Tudo isso sem cobrar nada em troca. Era solidária. Tinha o dom de cuidar, acolher e amar.

Na infância foi abusada pelo avô e, mais tarde, os abusos continuaram na figura do padrasto. Passou fome, foi humilhada por feirantes enquanto catava restos de frutas e verduras que eram descartados na rua e chegou a roubar oferta de igreja para se alimentar. Mas lutou como pôde, e a seu modo, contra a cultura machista na qual foi criada e que ainda se faz presente em nossa sociedade. Sua luta pelo o que considerava certo e justo era uma constante.

Amava estar com as pessoas, poder ajudar os outros, especialmente estar com crianças e cuidar delas. Os cabelos também eram algo que mereciam um cuidado especial, sempre! Além de gostar muito de assistir a filmes, séries e novelas, era apaixonada pelos modões sertanejos e, de um modo muito especial, amava a Deus e era bastante apegada a sua fé como testemunha de Jeová.

"Minha mãe tinha o hábito de responder sem nem ouvir o que falávamos e isso invariavelmente resultava em situações engraçadas, em conversas sem sentido. Outras vezes, desenvolvia um raciocínio e, do nada, começava a falar com a gente a partir da metade do que havia pensado, como se todos já tivessem ideia do que se tratava", conta Maicon, que recorda que ela lançava mão de muitos ditados populares e chavões aleatoriamente, o que causava risos, pois nem sempre cabiam exatamente na situação do momento.

Uma vez ficou hospedado na casa de Marly o namorado de uma amiga de Maicon. O visitante era guatemalteco e morava nos EUA (falava inglês e espanhol, duas línguas totalmente desconhecidas para ela). Mas não pense que houve dificuldade na comunicação entre ambos. Nada. Muito pelo contrário! A afinidade deles foi tanta que ficavam horas "conversando", ou melhor, trocando palavras e expressões em inglês, espanhol e português, sem que nenhum dos dois entendesse nada, mas se "entenderam" e conversavam com carinho, trocavam conselhos e davam muitas risadas, revelando um pouco da capacidade de Marly em receber com o coração. "Ela amava incondicionalmente todos e cada um, pois sabia que, no fundo, até a pior das pessoas é só uma criança assustada, com medo e carente", reflete o filho.

"Ela sempre sonhou com uma sociedade mais justa e sem sofrimentos. Tinha uma empatia acima do normal e se emocionava profundamente com as tristezas do mundo. Toda tristeza que ela conseguiu transformar em felicidade ela o fez. Definitivamente, minha mãe fez sua parte para construir um mundo melhor, dando de si a todos", conclui Maicon.

Marly nasceu em Goiânia (GO) e faleceu em Goiânia (GO), aos 49 anos, vítima do novo coronavírus.

Tributo escrito a partir de testemunho concedido pelo filho de Marly, Maicon da Silva Camargo. Este texto foi apurado e escrito por Lígia Franzin, revisado por Acácia Montagnolli e moderado por Rayane Urani em 26 de abril de 2021.