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Mauro Lucio Lima Sobrinho

1975 - 2020

De sorriso leve, como a brisa que lhe acarinhava o rosto, enquanto, com os pés na areia, contemplava o mar.

“Eu quero ser motorista!”, respondia o menino ao lhe perguntarem qual seria sua profissão quando crescesse. E o sonho permaneceu. Mauro foi, aos poucos, conquistando as estradas da vida. Começou cedo, viu? Aprendeu a dirigir escondido, com 12 anos e, a partir de então, não tirou o pé do acelerador.

Diariamente, exercia seu trabalho com uma dedicação digna de cinco estrelas. No lazer, idem. Era apaixonado por viagens e era ele quem organizava tudo: roteiro, hotel, aluguel de carro... Ah, fazia questão de ir dirigindo, lógico! E, de preferência, durante o mês de julho. Julho era o seu mês de experienciar novas aventuras.

Adorava ir à praia. Talvez, se reconhecesse na calmaria que um banho de mar lhe trazia. Mauro carregava em seu peito a mesma imensidão do oceano. Tinha um coração enorme. E, conforme contam quem o conheceu de perto, sua natureza era tranquila, como o balanço daquelas ondas que te permite flutuar, enquanto se olha o céu...

Em 2020, já estava tudo pronto para o próximo destino, no nordeste. Desta vez, iria a família toda. “Mas, infelizmente, veio o vírus e nos tirou a liberdade, os encontros em família, nossos planos, a viagem e, principalmente, meu irmão Mauro”, lamenta a irmã Lucia.

“Ele sempre me incentivou a viajar, mas nunca me interessei. Até que em 2017, resolvi ir. Fizemos uma viagem para Natal e Fortaleza. Ele dizia que depois da primeira vez, eu não ia querer parar... E não é que ele tinha razão?”, recorda Lucia, alternando um estado entre o riso e a saudade.

Mauro era o único filho homem, em meio às suas quatro irmãs. Dessa relação, tornou-se um homem prestativo, paciente e respeitoso com as mulheres.

Foi casado por mais de 20 anos com o amor da sua vida, Wandercy, cuja família coordena um Instituto, que ajuda crianças carentes. Mauro sempre abraçou a iniciativa com a esposa e até se vestia de Papai Noel, para distribuir presentes e afeto nos finais de ano.

Juntos, tiveram Leonardo, mas Mauro também participou da criação de Erick, Wiviany e Júnior, filhos da Wandercy.

Léo, de 16 anos, compartilhava uma relação de amizade com o pai. Era Mauro quem ia às reuniões de pais na escola, levava o filho ao médico, ao dentista, ao basquete, iam juntos para a academia… Além de pai e filho, eram grandes amigos.

Já os sábados de manhã eram dedicados à sogra, Maria Vitória. Ele gostava de levá-la ao supermercado ou ao shopping para fazer compras. Mauro tinha paciência de sobra para ficar esperando!

Enfim, com a família e amigos, sempre ofereceu a melhor versão de si. Com aqueles que estavam distantes, ligava ao menos uma vez por semana para perguntar se estava tudo bem. Com os que moravam perto, gostava de tê-los ainda mais próximo: aquele churrasco, casa cheia, gente esbanjando felicidade...

Mauro, então, partiu para sua última viagem. Partiu cedo, é verdade. Teve pressa. “Ele queria as coisas todas de imediato. Só agora compreendo o porquê ele ser dessa forma. Pois, sua passagem aqui neste plano, seria breve”. Sim, Lucia. Mauro já partiu. Mas foi de carro novo, sorriso leve e o porta-malas superlotado, com todas as boas memórias que construiu ao longo da vida.

Mauro nasceu em Macapá (AP) e faleceu em Macapá (AP), aos 44 anos, vítima do novo coronavírus.

Tributo escrito a partir de testemunho concedido pela irmã de Mauro, Maria Lucia Lima Sobrinho. Este texto foi apurado e escrito por Jornalista Júlia Palhardi, revisado por Lígia Franzin e moderado por Rayane Urani em 11 de julho de 2020.