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Murilo dos Santos Ferreira

1952 - 2020

Ele foi um pai, sem ter filhos. E cozinhava como ato de amor.

Acordar às 5 da manhã, fazer uma caminhada. Voltar, preparar o café-da-manhã com broa de fubá, bolo e biscoito frito, feitos na hora, para os irmãos e “sobrinhos-filhos” com quem morava. Colocar o feijão na pressão. Como acompanhamento, que tal uma carne de panela divina?

Cuidar das galinhas e do galo. Colocar uma música para tocar, e sentar debaixo do abacateiro para curtir o som e descansar. Às vezes, fazer um doce de mamão, sua especialidade. Deitar e assistir a um filme antigo. Depois, levar uma frutinha picada para o irmão mais velho que precisava se alimentar melhor. Essa era sua rotina, essas eram as coisas que Murilo tinha prazer em fazer.

Porque, afinal, era ele, o segundo de dez irmãos, quem fazia, acontecia e tomava a frente de tudo. Brincalhão, não guardava mágoa nenhuma. Nascido e criado em Belo Horizonte, teve uma infância difícil, de pouco estudo e mal sabia escrever o próprio nome. Mas isso não o impediu de passar muitos ensinamentos importantes para frente: humildade, amor, solidariedade.

A vida de Mugrelo, apelido que ganhou de um primo, ainda na infância, foi de dedicação total à família. Não criou a sua própria, porque não casou e não foi pai. Não de sangue. Mas, como ele mesmo costumava dizer: “pai é quem cria”. E isso Mugrelo fez muito bem, pode garantir Lorrayne, a sobrinha de quem ele cuidou com dedicação total, muito carinho e amor de sobra, desde o nascimento. Por ela e para ela: tudo e mais um pouco.

Murilo nasceu em Belo Horizonte (MG) e faleceu em Belo Horizonte (MG), aos 68 anos, vítima do novo coronavírus.

Tributo escrito a partir de testemunho concedido pelo irmão de Murilo, Luiz Carlos Ferreira. Este texto foi apurado e escrito por Jornalista Mariana Campolina Durães, revisado por Lígia Franzin e moderado por Rayane Urani em 20 de agosto de 2020.