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Nide Najar Bazolli

1935 - 2020

Nenhum coração pensa, mas o dela tinha memória e armazenou muito além do que os gigabytes podem contabilizar.

Além de ser uma mulher invelhecível no coração de quem a conheceu, Nide também esbanjava juventude com sua memória admirável. Ela era aquela que lembrava até o aniversário da sobrinha da filha da vizinha.

Ninguém segurava a melhor vovó do mundo depois que ela aprendeu a mexer no Whatsapp. Sempre disponível, encaminhava mensagens de amor, gargalhadas e fé ao longo de cada dia. E "ai" de quem visualizasse e não respondesse; a figurinha que expressasse sua indignação já estava guardada para o momento oportuno.

A devota de Nossa Senhora dava valor à escuta, gostava de ensinar a dirigir, fazer guloseimas, corujar os filhos e netos - pelos quais estava disposta até a dar sua vida - e sonhar. Sonhava muito! Seu grande e maior sonho era aparecer na tevê; não em número mas assim, em prosa, como a artista que ela sempre disse que era. E era mesmo uma artista em tudo. Amante da música e dos causos que contava, sua pluralidade singular a fazia dizer sempre: “A Globo está me perdendo."

Ana Paula conta que, quando passou a trabalhar na Globo, a avó se encheu de orgulho e contou para toda a vizinhança. "Ela mandava beijo para a Fátima todos os dias, mandava eu dar dicas de receita à Ana Maria e queria saber todas as fofocas! Minha artista nunca será mais uma", revela a neta sobre quem, a olho nu e a olho que fecha pra imaginar, será sempre uma estrela de brilho inconfundível que fez do cotidiano seu palco e do céu o seu limite.

Nide nasceu em Minas Gerais (MG) e faleceu no Rio de Janeiro (RJ), aos 85 anos, vítima do novo coronavírus.

Testemunho enviado pela neta de Nide, Ana Paula Bazolli Barbosa. Este tributo foi apurado por Rogério Oliveira, editado por Irion Martins, revisado por Didi Ribeiro e moderado por Rayane Urani em 16 de junho de 2020.