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Olga Stela de Souza Pedreira de Freitas

1951 - 2020

Preferia aproveitar o caminho a se preocupar com o destino.

Esta é uma carta aberta escrita a quatro mãos por Mariana e Luiz Paulo, filha e genro de Dona Tety:

Olga Stela ou “sublime estrela” é o seu nome. Engraçado pensar que ela sempre foi uma estrela a iluminar as nossas vidas; e continuará sendo, só que agora no céu e ainda mais brilhante.

Ela não gostava muito de seu nome, chamado apenas por meu pai quando os dois se enrugavam com besteiras do dia a dia. Gostava de ser chamada pelo seu apelido: Tety ou Tetety. Esse ela carregava com alegria e um sorriso estampado por onde caminhava, não importa se ao puxar conversa sobre como estava a filha do caixa do supermercado após a cirurgia na última semana ou ao agradecer a delicadeza de um desconhecido que segurou a porta do elevador pra ela.

Ela era pura doçura. Quituteira de mão cheia, nos aniversários de seus netos Gabriel, Vitoria, Neo e Ella, fazia questão de preparar os bolos; e não eram bolos comuns, não! Eram bolos temáticos! Cozinhava com talento culinário reconhecido por todos e com o coração preenchido de amor.

Qualquer visita que chegasse ao Sítio Xodó, onde viveu a maior parte da vida com o marido, Mário, sempre era recebida com “algum bolinho”, no mínimo, ou uma receita que ela vira na TV e resolvera testar. Preparar quitutes era um talento a mais para essa mulher maravilhosa. Seu prazer em cozinhar estava em ver os demais se deliciarem.

Ela sempre foi dos bastidores, nunca dos holofotes. E como gostava desse lugar... Observava discretamente a reação de cada um diante dos arranjos de flores, guardanapos coloridos e banquetes servido por ela com extremo capricho – sim, porque fartura era com ela mesmo – nos eventos que gostava de promover para os seus queridos. E quantos eram esses queridos!

Descobrimos, após o seu falecimento, que minha mãe deixou apenas três filhos biológicos: eu, Mariana, minha irmã Beatriz e meu irmão Alexandre. No entanto, com seu enorme coração de mãe, conquistou uma legião de filhos postiços que, assim como nós, ficaram órfãos e sentirão falta de seus conselhos, acolhimento, puxões de orelha e, principalmente, afeto e aconchego.

Ela era bem-estar. Porque estar do lado dela era uma brisa de ar fresco, um pôr do sol na praia, um arco-íris no final de um dia nublado, um campo florido... Ela via beleza em tudo e todos. Trazia serenidade e paz para onde passava; era capaz de amenizar dores e dar luz a momentos sombrios.

Mesmo nos seus momentos de maior dor ela nunca se entregou à melancolia e ao sofrimento. Sua frase mais comum era “estou direitinha”, quando perguntávamos sobre como ela estava.

Ela preferia “aproveitar o caminho” sempre a se preocupar com o destino. Via flores, pássaros, música, dança, alegria e cores em qualquer circunstância.

"Tia Tety é um ser de luz, amava receber as pessoas em sua casa. Cozinhava com paixão. Tia Tety é encanto, é acalento, aquele colo gostoso que sempre nos confortou. Uma mulher cheia de energia, seu lar era sua fortaleza." - escreveu com imenso amor e saudade o genro Luiz Paulo, que, na verdade, era filho também.

Protegeu os seus até onde pôde; em verdade, protegeu a todos até o final. “Escolheu” desencarnar durante a pandemia talvez para que não víssemos de perto o seu sofrimento.

A lembrança que ficará guardada em nossa memória será sempre a da sua melhor gargalhada. No último encontro com os três filhos juntos, no último fevereiro, ríamos alto e ela, após nos acompanhar, parou emocionada e disse “me faz tão bem ver essa cena”.

Minha mãe dedicou sua vida aos outros, a quem ama, à beleza da vida. Aproveitou cada suspiro, sempre com uma postura positiva sobre o que vinha pela frente, sobre a próxima oportunidade de estar rodeada por aqueles que amava. Nossa alegria é saber que vovô Amâncio e vovó Maria estarão lá para recebê-la e ela não se sentirá mais sozinha. Também sabemos que ela seguirá sendo luz por onde passar.

Olga nasceu em Salvador (BA) e faleceu em Salvador (BA), aos 68 anos, vítima do novo coronavírus.

Testemunho enviado pela filha e genro de Olga, Luiz Paulo Soares Cardoso e Mariana Freitas. Este tributo foi apurado por Ana Macarini, editado por Ana Macarini, revisado por Monelise Vilela Pando e moderado por Rayane Urani em 11 de julho de 2020.