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Paulo Cesar da Silva

1954 - 2020

Na roça ou na cidade grande, foi um lutador que desde sempre fez sua família e seus amigos sentirem muito orgulho.

Paulo nasceu na roça e começou a trabalhar desde menino. Trabalhou pesado até que conseguiu ir para a cidade, onde desenvolveu habilidades em diversas carreiras profissionais. Sua vida não teve nada de luxo, mas sempre foi bem-estruturada. Adorava trabalhar, era apaixonado pela família e por fazer o bem.

Paulo teve dois filhos em seu primeiro casamento: Paulo Henrique e Ana Paula. De sua união de muito amor com Marilea teve Daniela e Dina Karla. Os filhos deram a ele suas maiores paixões: Bárbara, Sofia, Eduardo, Heitor e, finalmente, Miguel, mas o último netinho não pôde conhecer o vovô e sentir o quanto ele os amava ─ Paulo fazia tudo por eles. O genro, Wallace, marido de Daniela, também tinha um lugar especial em seu enorme coração.

"Sempre tivemos uma ligação muito forte desde que nasci; ele sempre fez tudo por mim, até pagar promessa quando adoeci e ele foi a pé de Vitória até o Convento da Penha, em Vila Velha", conta a filha Daniela.

Paulo era daquele tipo mais fechado, não gostava de festas, de ambientes cheios... Porém, sentia-se à vontade nas comemorações em família. Amava dançar um forró, mas a moda de viola ─ que evocava suas raízes ─, ainda era seu estilo de música favorito. Ele se emocionava com facilidade, não conseguia conter o choro ao ouvir uma história triste ou uma poesia, principalmente do poeta Bráulio Bessa, um de seus preferidos.

Paulo estava sempre disposto a ajudar, era sincero, honesto, um homem de caráter. Estava sempre de bem com a vida e tinha muitos amigos fiéis que o admiravam e o amavam muito. Três em especial: o Augusto, o Silvio e o Rodrigues. A amizade com Rodrigues começou quando, por mais de dez anos, foram companheiros de trabalho. Rodrigues foi fundamental no apoio psicológico e até logístico durante toda a fase em que o amigo precisou de tratamentos médicos. Foram muito amigos, até o final.

Em 2019, Paulo recebeu o diagnóstico de câncer em estágio avançado no estômago, fígado e no sistema linfático. Segundo os médicos, o tratamento seria paliativo, mas ele seguia firme e, por incrível que pareça, gostava da quimioterapia. Quando as taxas de plaquetas estavam baixas e ele não podia receber o tratamento, entrava em depressão. A quimio mesmo, não o derrubava. Foi sempre forte, tinha sede de viver! Nas idas e vindas ao hospital, acabou sendo contaminado e lutou até o último dia. Partiu sem dor e tendo nas mãos um terço entregue por Daniela na véspera.

A filha recorda que "Nós caminhamos juntos numa só vontade: a cura. Porque para Deus, nada é impossível! Ele amava trabalhar e trabalhou até o último dia que o câncer deixou, nunca faltou um dia ao serviço e, mesmo doente, batia o ponto". Além de forte, como Daniela mencionou, a união de pai e filha era linda ─ os dois andavam sempre de mãos dadas. "A vida inteira respeitei e honrei muito meu pai. Fui a base dele, seu porto seguro, sua amiga, filha, enfermeira... fui tudo pra ele. Larguei um período da faculdade pra ficar com ele e faria tudo de novo."

Daniela conta ainda que seu casamento foi celebrado no hospital, durante um dos períodos de internação, para que o pai pudesse estar presente. Foi uma linda cerimônia, Paulo amou, se emocionou e agradeceu muito à filha, que nunca irá se esquecer do sorriso e do olhar do pai no momento em que lhe entregou as alianças.

"Papai foi um grande herói, um homem incomparável que lutou pela vida de maneira gloriosa. Um exemplo de pessoa, de homem, de esposo e de ser humano. Era gentil, honesto e paizão. Hoje, o que resta é a saudade, a saudade do sorriso, do jeitinho que ele me chamava de filha, dos abraços. Eu amava fazer carinho na cabeça dele... Ele falava pra todo mundo que tinha muito orgulho de mim. Nós fomos e somos uma dupla. Um amor só. Até a eternidade. Agora é minha vez de lutar para aprender a viver sem ele, sem o seu sorriso, seu jeito bem particular, seus carinhos e abraços", diz Daniela.

Paulo nasceu em Alfredo Chaves (ES) e faleceu em Vila Velha (ES), aos 66 anos, vítima do novo coronavírus.

Tributo escrito a partir de testemunho concedido pela filha de Paulo, Daniela Khristine Silva. Este texto foi apurado e escrito por Lígia Franzin, revisado por Mateus Teixeira e moderado por Rayane Urani em 10 de dezembro de 2020.