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Paulo Lopes dos Anjos

1961 - 2020

Fazia todos sorrirem. Viveu intensamente cada momento com sua família e amigos como se não houvesse amanhã.

Sabe aquela pessoa que quando vê algo divertido não consegue rir sozinha? Esse era Paulo. Compartilhar a felicidade era com ele mesmo. “Não conseguia rir de vídeo sozinho, tinha que mostrar para todo mundo, para todos rirem com ele”, lembra a filha Greicy. Todos os dias, no final da tarde, ele visitava o mercadinho de seu amigo Demir – que fica na rua de sua casa – para papear e contar piadas que ele decorava só para fazer os amigos rirem; era a alegria em pessoa.

No meio do caminho, por onde quer que passasse, não se cansava de colher frutas nas árvores da rua para alegrar o dia daqueles de quem gostava. “Ele ia buscar abacate, manga e acerola para entregar pro povo”. Dono de um coração enorme, Paulo demonstrava seu carinho mais com atitudes do que com palavras. Adorava passear nos mercados com sua esposa Indiara para pesquisar promoções, pechinchar e, assim, ajudar o amigo Demir.

Durante muitos anos, Paulo foi motorista de ônibus, viajou pelo Brasil e pelos países vizinhos. Ao dirigir para o Londrina Esporte Clube, recebeu carinhosamente o apelido de “Motoca” por parte dos jogadores do time. Por viajar bastante, ele adorava contar e compartilhar um pouquinho de sua experiência sobre os lugares por onde andou. Se alguém da família precisasse de alguma indicação de viagem, Paulo estava pronto para sugerir.

Parceiro para todas as horas, Paulo nunca desamparou os seus. “Pai, irmão, conselheiro, psicólogo, parceiro e responsável por boa parte das histórias felizes dessa família”, conta sua filha. Era o tipo de pessoa que se doava em todos os seus relacionamentos. Dedicação era o seu nome do meio. Paulo não fazia as coisas pelo simples ato de fazer, era de uma entrega absoluta e, se mostrar presente por quem ele gostava, era a melhor recompensa.

Adorava juntar a família e os amigos para fazer um churrasco todos os domingos, sempre acompanhado de sua batidinha – drink especial que ele mesmo preparava -, era sua marca registrada. A favorita era feita de vinho, leite condensado e sorvete de uva, essa bebida especial adoçava os domingos festivos. Levar a esposa para passear e sair para jantar com a família aos sábados à noite também eram programas garantidos. “Hoje vou sair, aproveitar com a minha família, pois não sei se vou estar vivo amanhã”, relembra Greicy a fala recorrente do pai aos amigos e vizinhos.

Marido apaixonado, dedicado e companheiro. Pai amoroso, zeloso e cheio de orgulho de Woshington, Greicy, Grazielly e Douglas. Avô babão, divertido e encantado pela sua neta Manu, de 3 anos, “Ele adorava levar a Manu ao mercadinho para dar doces e andar de carrinho de compra, era apaixonado por ela”. Amigo sem igual, insubstituível. Sempre fez tudo o que estava ao seu alcance para ver a família feliz e realizada.

Em seu último Dia dos Pais, recebeu uma deliciosa surpresa preparada pelos seus filhos. Ele já estava querendo um celular novo, foi então que Woshington, Greicy e Grazielly se juntaram e compraram o aparelho. No almoço de comemoração, eles esconderam o presente no fundo de uma caixa com um tênis que já pertencia a ele. Paulo costumava ganhar muitos sapatos, então esperava por isso.

“Ao abrir a caixa, deu um sorriso amarelo, afirmando ‘Mas esse tênis já é meu’. Ao perceber o celular camuflado, sorriu feito uma criança quando ganha o presente pedido ao Papai Noel”. E Paulo, que sempre foi tão durão, não conteve as lágrimas e se emocionou com a atitude da família. História essa que foi filmada e que é revisitada por eles recorrentemente.

Os olhos de Paulo sempre se enchiam de lágrimas ao falar de seus filhos e neta. Talvez fosse uma forma de extravasar todo o amor que cabia em seu peito. As estradas percorridas e os lugares visitados por ele em sua profissão não chegam aos pés do caminho que trilhou com sua família. As memórias e lembranças mais gostosas estarão sempre marcadas no coração de seus copilotos de vida.

Paulo nasceu em Londrina (PR) e faleceu em Londrina (PR), aos 59 anos, vítima do novo coronavírus.

Tributo escrito a partir de testemunho concedido pela filha de Paulo, Greicy Lirian Freitas dos Anjos. Este texto foi apurado e escrito por Jornalista Marina Teixeira Marques, revisado por Lígia Franzin e moderado por Rayane Urani em 26 de outubro de 2020.