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Risomar Luis de França

1944 - 2020

Quando alguém reclamava que o dia estava cinza, ele dizia que cinza também era uma cor bonita.

O nome traduzia sua essência, era alegria e calmaria. Tal qual à brisa do mar, Risomar transmitia tranquilidade aos que estavam a sua volta. E ele sempre estava rodeado de gente, seus oito filhos (Ivanildo, Ivoneide, Ivani, Ivonaldo, Everaldo, Vanusa, Vânia, Manuel) que o digam.

E mais tarde, vieram os netos cujos sorrisos ele arrebatava por predileção. Muitas memórias afetivas foram construídas a partir de uma dança mamulenga quando ele pedia aos netos para subirem sob seus pés. Era uma coreografia amorosa e sorridente.

Quando sua amada esposa Maria dizia que a refeição estava servida, Risomar ou Mamau, como também era chamado, tratava antes de passar pela sala. Lá, servia-se de uma pinguinha, que, segundo ele, lhe abria o apetite.

Risomar também era um torcedor apaixonado. Uma vez Flamengo, sempre Flamengo!

Tributo escrito por Gabriele Ramos Maciel a partir de testemunho concedido pelo neto de Risomar, Alexsandro.

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Risomar, Riso-mar, uma risada que tinha a infinitude do próprio mar. O nome perfeito para descrevê-lo. Seu riso era poético, era sensível, era constante. Não tinha o que lhe tirasse a alegria do rosto: até os dias mais cinzas de São Paulo tinham sua profunda beleza.

Casou-se com sua esposa, e seus cinco enteados, de pouca idade na época, foram criados, cuidados e protegidos como seus próprios filhos. Apaixonado pelos netos e pelo prazer de levá-los e de buscá-los na escola.

Um dia, levou um de seus netos para o alistamento no exército. Às cinco da manhã, foi buscá-lo. Cedo, quase madrugada, porque atrasos nunca tiveram espaço no dicionário dele. Na fila, a dupla esperou o tempo passar logo atrás de uma mulher acompanhando seu sobrinho trans. Conforme o tempo passava e as pessoas chegavam, os olhares eram constantes voltados à mulher e seu sobrinho. Risomar, sensível como era e percebendo o constrangimento nela presente, se aproximou e perguntou-lhes: "Oi, tudo bem?". No final do dia, “seu avô tem um coração lindo, cuida bem dele” saiu como uma melodia da fala da mulher antes desconfortável. Realmente, o dono do coração mais lindo.

A rotina era sagrada. Cinco da manhã era o seu horário de despertar. Como de costume, passava o café (o melhor café do mundo, aliás). A partir de então, acordava o neto e o preparava para ir à escola, até porque o atraso nunca era uma opção. Dirigia-se então à casa de seu outro neto, sentava-se no sofá e esperava até que a condução o buscasse para a escola. Passava a tarde ajudando sua querida esposa nos afazeres domésticos. No final do entardecer, voltava à casa de seu neto, brincava com seu bisneto e lá passava horas ouvindo chorinho e samba raiz. Jovelina Pérola Negra, Adoniran Barbosa e Jacob do Bandolim eram sempre seus pedidos. Momentos deliciosos, momentos de paz.

"Eu o chamava de minha pessoa, ele sabia que era minha pessoa favorita desse mundo e minha pessoa favorita se foi levando metade do meu coração", lembra, com saudades, o neto. Nunca se ouviu uma palavra negativa sair da boca de Risomar: não julgava, não falava mal de quem quer que fosse. Há quem diga que, de tão bom, Risomar não era desse mundo. Era luz. Era alegria, onde quer que estivesse. De missão cumprida com muita honra, voltou para o lugar que sempre foi seu. O mundo não merecia o anjo que Risomar foi.

"Até um dia... (uma história que me recuso a por um ponto)", despede-se o neto.

Com toda sua alegria e bondade, Risomar será eternamente lembrado e amado.

Do seu neto, Bruno França.

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Risomar fazia de tudo para ver sua família bem. Era sempre muito preocupado com todos. Seu hobby diário era cuidar dos netos. Mamau, como ele gostava de ser chamado, era um flamenguista rubro negro, apaixonado pela vida e não dispensava um churrasco em família.

“Grandioso Risomar... A melhor pessoa do mundo.”, desabafa sua neta Jolania Passos.

Doce e alegre, é assim que a família vai se recordar do pai, marido, avô espetacular que ele foi.

"Ontem revirando uma gaveta, dei de cara com a saudade em minha frente. Era uma fotografia de perfil e você me olhava. Pois é, parecia que até adivinhava que não mais daria certo o nosso amor" se declara a neta Michelle, com esse verso de Jorge Aragão, que continua: "Sua ausência é profundamente sentida, e um dia iremos nos encontrar, igual aquelas tardes que você me pedia pra colocar o CD e tocar papel de pão várias vezes. Te amamos herói."

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Maumau, apelido carinhoso do Risomar, adorava sua rotina. Acordava cedo, fazia o café mais gostoso do mundo, lembrava um neto de ir para a faculdade e colocava o outro na perua da escola. Passava o resto do dia ajudando sua esposa com os afazeres e a tarde gostava de ouvir músicas antigas, especialmente Jacob do Bandolim. No dia de receber a aposentadoria, chegava cedo no banco e adorava ficar na fila conversando.

A pontualidade era marca registrada do Maumau. Quando foi levar o neto para se alistar, fez questão de que eles saíssem de casa cedo e fossem os primeiros da fila. Nesse dia, Seu Risomar percebeu que as pessoas olhavam torto para uma mulher trans que aguardava na fila ao lado deles, fazendo com que ela ficasse cabisbaixa e constrangida. Ele não pensou duas vezes antes de puxar conversa com ela e o papo foi longe, repleto de gargalhadas e sorrisos. Na despedida, a moça disse para Bruno, neto de Seu Maumau: “cuida bem dele, o coração dele é lindo”. Seus bisnetos, netos, filhos, esposa e todos aqueles que tiveram a sorte de conviver com o Seu Maumau concordam com ela.

Os netos amavam segurar na mão dele quando andavam pela rua, e foi assim, de mãos dadas, que ele levou e buscou seus netos na escola até eles chegarem na oitava série. Seu Risomar era presente, ia nas reuniões de escola dos netos, os acompanhava no hospital, perguntava como tinha sido a aula. Cuidava de todos e dele também, adorava perfume e cremes para o corpo.

Sempre que ouvia alguém reclamar que o dia estava cinza, Maumau dizia que cinza também era uma cor bonita: ele via beleza em todos os momentos e lugares. Quando seu neto contou para ele sobre sua sexualidade, ele o abraçou e disse que o amaria para sempre e do mesmo jeito de antes. Maumau não julgava, pelo contrário, espalhava amor e acolhimento por onde passava. Sua frase clássica era “tá tudo bem?” e ele a repetia várias vezes por dia, sempre que encontrava alguém que amava. Ele realmente se interessava pela resposta, gostava de ajudar a todos.

Adorava contar as histórias de sua juventude, do período em que viveu no Rio de Janeiro, dos seus antigos colegas de trabalho. Flamenguista convicto, vai continuar discutindo sobre futebol com seu filho palmeirense. A única diferença é que não estão mais no mesmo plano.

Risomar nasceu Recife (PE) e faleceu São Paulo (SP), aos 75 anos, vítima do novo coronavírus.

Estudante de Jornalismo desta história Eleonora de Almeida Marques, em 17 de maio de 2020.