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Rodolfo Walter Garcia Arizmendi

1947 - 2020

Médico peruano que compensava seu forte sotaque com doçura.

"Lá vai o médico", era o que se ouvia muito. Afinal, para qualquer chamado para as distantes vilas de Parintins, era o Dr. Rodolfo quem subia na voadeira para ir à Tracajá, ao Maranhão, ou mesmo até à Terra Santa, no baixo Amazonas; enfrentando o sol, a chuva e o vento, que insistia em derrubar sua inseparável touca e levá-la para as profundezas do Amazonas.

O peruano que, atravessando os Andes para praticar a medicina na floresta, chegou ao Acre em 1998 e, após poucos anos, adotou Parintins como seu novo lar.

Trouxe na mala seu gosto por cozinhar e misturou com maestria os temperos peruanos e amazônicos. Essa habilidade influenciou as soluções, muitas vezes engenhosas e simples, na prática da medicina, onde salvou muitas vidas.

“Chama, chama... me ajuda aí ô...”, dizia o médico, conhecido pela sua astúcia e pelas longas caminhadas, sempre acompanhadas pelo seu guarda-chuva e por uma pequena bolsa que carregava.

O médico não tinha carro ou moto. Era a pé, que cruzava a cidade para o trabalho ou visita aos amigos.

Às companheiras de profissão, quando lhe pediam ajuda, respondia: “Que quieres mujer?” Nunca negava.

Tinha especial carinho no atendimento às crianças - afinava, ou tentava afinar, sua voz para conversar com elas.

Um herói simples, querido por todos. Seus amigos o chamavam de "Lhama".

David Assayag, o mítico levantador de toadas dos famosos Bois de Parintins, entoou seu canto em homenagem ao Lhama.

Havia um Lhama na terra dos Bois.

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O médico, de origem peruana, foi o primeiro profissional de saúde a morrer por coronavírus em Parintins, no interior do Amazonas.

Familiares disseram que Dr. Rodolfo, como era conhecido nos mais de 20 anos em que atuou na área de saúde da cidade, não resistiu a uma parada cardíaca após o contágio.

"Ele agora está livre de aparelhos e tubos; nos deixou, e levou com ele nossa alegria", disse, em nota, José Ênio Espanholate Sobrinho, filho de Rodolfo, que alguns dias após a morte postou em seu perfil no Facebook: “Sempre a postos para os plantões difíceis e demorados, dedicado ao seu modo e experiente pelos seus quarenta e tantos anos de profissão, sabia lidar com tudo, até mesmo com as pessoas que, de certa forma, recriminavam-no.”

"Rodolfo abdicou da vida dele para atuar em função da população, não só na pandemia como em toda a sua vida profissional", disse uma colega de trabalho. Comovido e alegando dificuldade em falar, outro profissional destacou a atuação do médico na zona rural.

Texto enviado por Jornalista Carmen Munari, baseado nos sites G1, Reporterparintins, Emtempo e no Facebook.

Rodolfo nasceu em Lima (Peru) e faleceu em Manaus (AM), aos 72 anos, vítima do novo coronavírus.

Tributo escrito a partir de testemunho concedido pelo filho de Rodolfo, José Espanholate Sobrinho. Este texto foi apurado e escrito por Jornalista Rogério Zé, revisado por Lígia Franzin e moderado por Rayane Urani em 10 de junho de 2020.