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Sara Rabello Rei de Jesus

1978 - 2020

Quando fazia um doce, o cheiro que vinha da cozinha era inconfundível.

Sara era a doceira da família. Não que essa fosse sua única profissão, visto que também era professora da educação infantil, mas em toda reunião familiar, nos churrascos ou nos aniversários, você podia ter certeza que era ela que tinha feito a sobremesa. “A gente já sabia que depois do almoço vinha a melhor parte”, conta a cunhada, Yara Fecchio. “Sara era sinônimo de doce. Doce bom. Tudo que ela tocava tinha êxito, era dos deuses.”

Não era só na cozinha que ela era extremamente habilidosa. Sara também era uma excelente artesã: bordava, tricotava e adorava fazer trabalhos manuais e voltados para a reciclagem. No aniversário de 15 anos de sua única filha, Fernanda, além de ter feito todos os doces, também cuidou das decorações, fazendo até mesmo os coqueiros da festa com tema tropical.

Também fazia doces para vender com o intuito de complementar a renda, mas muitas das vezes seus quitutes eram a forma que tinha de presentear pessoas queridas. No aniversário de um ano da filha de Yara, por exemplo, além de ter dado o bolo de presente, fez diversos suspiros coloridos para decorar a mesa da festa. “Já sabia que vinha coisa boa”, Yara recorda de ter pensado na época, quando Sara falou que a decoração e o sabor do bolo seriam surpresa.

Mas, os dons de Sara, nunca lhe vieram de graça. Mesmo tendo facilidade para aprender, era extremamente esforçada, estudiosa e uma leitora voraz. Estava sempre fazendo diversos cursos na sua área de formação, a Pedagogia, e vinha cursando uma pós-graduação. Havia tirado a CNH há muito tempo, e ainda assim havia voltado a dirigir apenas recentemente, quando passou no concurso público em Diadema. Adorava estar atrás do volante e, diariamente, aventurava-se pelo trânsito da capital de São Paulo, onde morava.

Na sua hora de descanso, gostava de desacelerar. Adorava visitar a parte da família que morava na Paraíba, mas com um detalhe importante: curtia mesmo era fazer a viagem de carro. Levava cerca de três ou quatro dias para chegar e, para ela, essa era a graça da coisa. Visitava diversas cidadezinhas no caminho, tirando várias fotos com o marido e a filha, e provando o que tinha de melhor da culinária local.

“Eles não tinham tanta pressa de chegar pelo fato de poderem passear”, afirma Yara. “E ela adorava, a paixão dela era viagem. Ficar em casa sentada no sofá não era com ela.” Segundo a cunhada, gostava tanto de viajar, que chegou a começar a cursar Turismo, embora nunca tenha concluído. “Teria dado uma turismóloga e tanto”, brinca a familiar.

Muito paciente, era excelente ouvinte. Segundo Yara, “tinha a solução para todos os problemas”. “Mas por que você não tenta assim?”, costumava perguntar. “Ela era muito mais de ouvir do que de falar, sempre tinha uma opinião a fornecer, sempre tinha um quê de ajudar” descreve a cunhada.

Em janeiro de 2020, perdeu o marido, Leonardo de Jesus, com quem teve um casamento muito feliz por 17 anos. Nos últimos cinco meses, que antecederam seu falecimento, foi pai e mãe para a filha, que estava prestes a completar 16 anos. Era muito querida por toda a família, pelos amigos do trabalho e da igreja que frequentava.

Sara nasceu em São Paulo (SP) e faleceu em São Paulo (SP), aos 42 anos, vítima do novo coronavírus.

Tributo escrito a partir de testemunho concedido pela cunhada de Sara, Yara Fecchio. Este texto foi apurado e escrito por Jornalista Audryn Karolyne, revisado por Lígia Franzin e moderado por Rayane Urani em 14 de junho de 2020.