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Severina Francelino da Silva

1960 - 2020

Com Bibi não tinha tempo ruim. Por onde andava, deixava rastros de amor.

Mulher de fibra, cheia de gás para viver, transmitia uma felicidade sem igual. Por onde andava, deixava rastros de amor.

“Comigo não tem tempo ruim, pego minha bolsa e vou tomar minha cervejinha porque eu quero é ser feliz”, assim dizia Severina.

Forte, franca e feliz, encarava a vida com bravura e doçura. Essa era a Severina, a eterna Bibi.

Sua trajetória na Terra encerrou-se, mas tudo o que ela representou aqui permanecerá vivo na memória daqueles que a conheceram.

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"Vamos viver o hoje e o agora, que chorar é pra quem não tem o que fazer", dizia ela.

“Vivíamos nós duas, muito unidas, muito grudadas, muito parceiras”, assim Kícia começa a nos contar sobre sua mãe Severina, nos dizendo sobre o quanto corajosa foi esta mulher que saiu da Paraíba para o Rio de Janeiro ainda muito jovem, aos 16 anos, em busca de uma vida melhor. Ali no Rio, casou-se, trabalhou como doméstica durante muito tempo e sofreu muitas dificuldades financeiras e humanas, morando durante muitos anos em condições sub-humanas.

Nordestina forte, como diria o poeta, Severina trabalhava muito e sorria para o mundo. Auxiliar de serviços gerais em uma empresa de telecomunicações, trabalhava o dia inteiro e iluminava as ruas do Rio com seu sorriso, indo para casa, não sem antes passar para uma cervejinha com alguns amigos, “fechando os bares” do bairro, como contou sua filha; e sempre dizendo que veio ao mundo para ser feliz.

Com problemas de saúde que não lhe deixavam segurar uma gravidez a termo, Severina foi perdendo, um a um, alguns filhos. Kícia recorda-se bem de um de seus irmãos que se foi quando ela ainda era bem criança, aos 4 anos. “Eu sou filha única, a única que vingou, vivi sempre para ela e ela por mim. Em todos os momentos da minha vida”.

A vida nunca foi generosa para Severina, que também perdeu o marido com quem teve uma relação muito difícil, conforme contou Kícia: “Meu pai não era uma pessoa fácil, mas foi o grande amor da vida dela”. Mas o desânimo não era um lugar onde Severina queria morar. Sofreu muito, mas estava sempre otimista. Carregava sempre um sorriso no rosto e “tinha uma pele maravilhosa”. A idade? Não aparentava seus 59 anos! Era, por natureza, jovem.

Severina, Severa, Seve, Bibi, Bia... tantos apelidos para alguém tão especial!

“Minha mãe era a vida em sua forma mais intensa. Amava viver, trabalhar, conviver com as pessoas, dividir o pouco que tinha... Tudo intensamente! Possuía um coração enorme. Era muito perfeccionista e muito exigente. Ela podia!”, nos disse Kícia, que concluiu: “A doença a levou em muito pouco tempo. Foi um sopro”.

Severina nasceu na Paraíba e faleceu no Rio de Janeiro (RJ), aos 59 anos, vítima do novo coronavírus.

Testemunho enviado pela sobrinha e pela filha de Severina, Renata Santos e Kicia Francelino Ciriaco. Este tributo foi apurado por Laísi Rocha, editado por Lucas Cardoso, revisado por Luiza Carvalho e Lígia Franzin e moderado por Rayane Urani em 4 de junho de 2020.