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Sonia Maria Ferraz

1952 - 2020

Uma tecelã que, com os fios do trabalho, fazia os tecidos do amor. Uma pessoa que gostava de ouvir o outro.

A Sonia foi uma pessoa muito dedicada à família e ao trabalho. Muito jovem deixou a cidade natal e o trabalho rural com seus pais e foi trabalhar numa grande indústria de tecidos.

O labor de toda a sua vida, com o qual construiu a casa que abrigaria a família, conferia a ela um aroma característico, que misturava o cheiro de óleo de máquina dos teares industriais à doçura do perfume natural, que ainda impregna a memória da filha Elaine.

Ela conta emocionada que seus pais se separaram quando ela estava com apenas dois anos. Então, Sonia voltou para a casa dos pais e, assim, acabou ajudando a criar os irmãos menores. Mas o trabalho, que mantinha o sustento, mantinha também Sonia afastada deles e da filha ainda pequena. Essa distância era, a seu ver, necessária para alcançarem o objetivo: uma casa própria. O objetivo foi alcançado!

A aposentadoria precoce, após um AVC, permitiu que curtisse o neto mais velho, que foi morar com ela. Ela também sempre adotou pessoas necessitadas, que encontravam em sua casa abrigo e escuta.

Foi uma mulher que escolheu viver para ajudar através do trabalho. Amou dessa forma, generosa e na labuta diária. Como prova do amor silencioso que sentia, a filha única estampou na pele seu nome e um singelo beija-flor.

Elaine conta que a mãe pressentiu que estava de partida um mês antes. E, no seu jeito peculiar de afirmar seu amor, tratou de deixar a dispensa cheia e de doar seus pertences. Ela só não previu que seria a Covid-19 que a levaria.

Sonia nasceu em São Pedro (SP) e faleceu em Sumaré (SP), aos 57 anos, vítima do novo coronavírus.

Testemunho enviado pela filha de Sonia, Elaine Cristina de Camargo. Este tributo foi apurado por Lila Gmeiner, editado por Hélida Matta, revisado por Lígia Franzin e moderado por Rayane Urani em 7 de dezembro de 2020.