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Vera Lúcia Martins Vieira

1948 - 2020

Rainha das cartinhas, dos bilhetinhos escritos e desenhados a mão. Amava fast-food e era fã de Vinicius de Moraes.

A pessoa quando nasce para cultivar amor não consegue evitar sua missão. Assim era Vera Lúcia, essa mulher caprichosa e vaidosa, sempre de unhas feitas que não economizava afeto ou declarações de amor. Jamais saía de casa sem passar batom e desfilava com graça em seus sapatos de salto alto.

Era uma verdadeira artista quando queria agradar seus filhos e netos; criava cartões, cartas e bilhetinhos personalizados nas mais diversas datas festivas, desde os aniversários, dia das crianças, Natal e até o dia da independência; cada data comemorativa era um pretexto para que Vera exibisse seus dotes de escrita e desenho, tudo feito com letrinha caprichada e lindos desenhos. Escrevia para dar conselhos, acarinhar e também agradecer.

Tinha um jeito peculiar de encarar a vida: para ela, remédio bom era um bom copo de refrigerante e o café-da-manhã ideal tinha de ter creme de chocolate. Não resistia a uma passadinha num fast-food; “Era fã de carteirinha!”, conta a neta Amanda.

Amava registrar as passagens de sua vida em anotações repletas de reflexões e pensamentos; era essa sua forma de demonstrar amor e gratidão pela vida.

Mesmo que o dinheiro estivesse um pouco apertado, Vera presenteava os netos, nem que fosse com um único bombom. E chamava os filhos com apelidos no diminutivo para demonstrar o quanto eram amados e especiais. Dona de uma memória de fazer inveja a muitos jovens, nunca deixou passar uma data importante.

Admiradora de Vinicius de Moraes, Vera teria vivido a alegria de ver sua filha Larissa entrar para a Academia de Letras de sua cidade, cujo patrono era justamente “O poetinha”, que ganhou carinhosamente esse apelido de Tom Jobim – um apelido carinhoso no diminutivo, bem como Vera gostava; infelizmente, não deu tempo. O outro filho de Vera foi batizado Vinícius, em homenagem ao grande escritor.

Vera tinha o melhor e mais confortável "colinho de mãe"; em seus braços, netos e filhos se sentiam seguros, se sentiam em casa. Por isso, acreditam que lá no Céu Vera esteja sendo acolhida e protegida pelos braços de Nossa Senhora, de onde, se fosse possível mandaria muitas cartinhas escritas em nacos de nuvens e polvilhadas com o brilho das estrelas.

Vera nasceu em Marília (SP) e faleceu em Campinas (SP), aos 71 anos, vítima do novo coronavírus.

Testemunho enviado pela neta de Vera, Amanda Scomparim Port. Este tributo foi apurado por Ana Macarini, editado por Ana Macarini, revisado por Lígia Franzin e moderado por Rayane Urani em 1 de julho de 2020.