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Waldyr Ribeiro Ornellas

1937 - 2020

Entre bilhetinhos e brincadeiras, deixou uma linda história de carinho e dedicação.

"Na convivência de quase 50 anos, o nosso alicerce era o amor", define Maria das Graças, esposa que viu o rapaz pensativo que conhecera transformar-se em um homem risonho e cheio de expectativas. Crescia a família e também a dedicação do pai, marido e avô. Com gestos de carinho e a atitude de quem se faz presente, Waldyr foi construindo lar e família ao lado da companheira.

Ele e seu Passat verde levaram a filha Patrícia por um caminho de musiquinhas, passeios e lembranças: "lá vem o cavalinho..." Foram 46 anos de convívio e carinho. Entre noites de bronquite e manhãs de colégio, o pai só dormia quando a crise passava e o dia só começava quando ele a despertava: "Pat, tá na hora". Todo ato de cuidado era natural para Waldyr, que nunca reclamou de ser o motorista das caronas para as festinhas — nem quando era pra ir buscar de madrugada.

As brincadeiras com bilhetinhos eram a marca registrada de um pai que imprimiu no mundo um legado de afeto e proteção. Se os filhos são a mistura dos seus pais, Patrícia vai levar sempre consigo, na mente, na alma e no coração, a memória de um Waldyr que era, ao mesmo tempo, responsável e divertido, sempre partilhando com ela as alegrias de cada conquista.

Aos olhos de Thaís, sua outra filha, o pai era uma combinação surpreendente de elementos. Mãos que não sabiam ser delicadas nem durante o cafuné, mas que eram capazes de oferecer acolhimento como nenhuma outra. A seriedade intimidadora na voz e no olhar que sugeriam bronca, mas se derretiam em lágrimas ao ouvir "te amo, pai!"

Ela conta que herdou de seu pai um imponente nariz e muitos traços de sua personalidade. A dificuldade de falar em sentimentos talvez seja a semelhança mais evidente entre os dois. No entanto, as palavras escolhidas por Thaís para defini-lo dizem tanto e tão claramente que sequer precisam ser explicadas: "meu parceiro de dança, meu porto seguro emocional".

A lista de lembranças é imensa: cada “lutinha" na cama que era interrompida por alertas maternos de “ela vai se machucar”, cada susto atrás da porta da cozinha e cada bilhete espalhado pela casa é um instante precioso que a filha gostaria de ver repetir-se por toda a vida.

De outra perspectiva, Tales, seu genro, lembra com admiração da calma e da serenidade com que Waldyr o ajudou nos momentos mais difíceis: "Ele sempre valorizou a família e sempre me aceitou como um componente dela".

Família esta que floresceu em netos amorosos como Arthur, cujo coração se aquece com as boas lembranças de Waldyr e se entristece por saber que ele partiu.

Toda a saudade do neto nasce em um lugar muito especial da memória, um espaço reservado para celebrar um homem honesto, atencioso e cheio de amor para dar. Perdido em lembranças na varanda, Arthur conversa, joga damas e tenta adivinhar a cor do carro na companhia deliciosa do avô, que ficará eternizado assim: como "Bigu" e brincadeira.

Também de riso e carinho é feita a memória de Anne, para quem Waldyr representou o melhor avô do mundo. Suas histórias inesquecíveis e seu apoio nos momentos difíceis trouxeram para a neta uma felicidade sólida, completa.

A simplicidade de um brincalhão querido e sempre de bem com a vida é a essência de Waldyr aos olhos das primas Carmem e Valéria. A distância entre eles não era suficiente para esmorecer o carinho que nutriam e, quando se encontravam, Didi se desdobrava em mimos e alegrias.

Assim viveu Waldyr: guardando todos os seus no mais generoso abraço de carinho e acolhimento.

Waldyr nasceu no Rio de Janeiro (RJ) e faleceu em Barra Mansa (RJ), aos 82 anos, vítima do novo coronavírus.

Testemunho enviado pela filha de Waldyr, Thaís Ornellas de Souza. Este tributo foi apurado por Lígia Franzin, editado por Thais Oliveira, revisado por Lígia Franzin e moderado por Phydia de Athayde em 28 de julho de 2020.