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Walkyria Rocha dos Santos

1950 - 2020

Caso se ouvisse uma risada alta, na beira da praia ou nos corredores da escola, podia saber: lá vinha a Walkyria!

Criada pela avó Mãe de Santo, Walkyria foi uma criança que aprendeu muito cedo a valorizar as suas origens, a pele negra e a religião de matriz africana. Apesar de não ter podido passar muito tempo com a avó, que estava sempre cheia de responsabilidades com as obrigações do terreiro, Walkyria tinha-a como uma inspiração.

Na infância, morou no bairro Barbalho, onde a maioria das pessoas era branca. Foi lá que a menina Walkyrira descobriu que o racismo existia e que a discriminação vinha contra ela. Só depois, quando se mudou para o bairro de Pernambués, é que viveu sem sofrer ataques. Com seu jeito determinado de ser, transformou o que experienciou e ouviu em um impulso para a sua autoestima. E que impulso! Da criança à adulta, Dona Wal tornou-se uma mulher com a autoestima lá em cima. "Minha mãe gostava de usar biquínis e maiôs diferentes. Sempre vaidosa, gostava de tirar fotos para postar nas redes sociais", conta a filha Augusta.

Com as irmãs, Dona Wal gostava de passear. Na juventude, o destino certo era a praia. Depois, quando já era mãe de quatro, as idas ao litoral diminuíram, mas ela ainda as amava. Lá, em seu ambiente natural, dava para ouvir sua risada alta de longe. Augusta conta que "o dia de ir à praia era sempre um dia especial para Dona Wal".

Ainda na juventude, ela estudou em uma escola de freiras e foi lá que "tomou gosto por lecionar", como diz Augusta. "Em Pernambués, ela alfabetizou muitos moradores e também um tio, irmão de meu pai". Dona Wal fez magistério e era conhecida por todos como "prô", um jeito carinhoso de referirem-se a ela como professora.

Ela trabalhou também como secretária em uma escola particular. Naquele lugar, foram destaque toda a sua dedicação com a comunidade escolar e toda a energia que espalhava pelos corredores da escola. O universo do ensino — formal ou não — tinha um lugar especial em sua história.

Por ter tido um casamento conturbado, Dona Wal separou-se cedo, quando os filhos estavam no fim da infância. A eles, sempre dizia: "Os pais podem até se separar, mas eles nunca vão se separar dos filhos".

Pelos filhos, ela podia morrer — "só não morrer jovem", dizia. Ela tinha pavor só de pensar nisso. "Quando éramos crianças, ela tinha muito medo de que algo acontecesse em sua vida e ela viesse a morrer, deixando-nos pequenos e desamparados, aos cuidados de alguém que poderia nos fazer mal", diz Augusta, com quem Dona Wal tinha uma conexão muito forte. "Eu engravidei cedo, e ela sofreu com isso, mas nunca me deu as costas. Sempre fomos unidas".

Dona Wal partiu aos 69 anos. Para os filhos, as amigas e todos que se divertiam com ela e suas risadas altas, Wal partiu cedo demais. Fica no coração de cada um a presença dessa mulher de energia contagiante que era Walkyria.

Walkyria nasceu em Rio de Janeiro (RJ) e faleceu em Salvador (BA), aos 69 anos, vítima do novo coronavírus.

Tributo escrito a partir de testemunho concedido pela filha de Walkyria, Augusta Perpetua Rocha dos Santos. Este texto foi apurado e escrito por jornalista Michele Bravos, revisado por Débora Spanamberg Wink e moderado por Rayane Urani em 30 de novembro de 2021.